Mais do que um artigo jornalístico, os próximos parágrafos são um grito de revolta de um jovem jornalista muito aficionado, que vê a sua vertente artística favorita viver um momento muito difícil.

Nos últimos anos houve uma diminuição significativa no número de espectáculos e de espectadores nos eventos taurinos em Portugal, basta analisar com atenção os dados divulgados recentemente pelo IGAC, o órgão estatal que assegura o exercício da actividade tauromáquica em Portugal continental, nos domínios do licenciamento, fiscalização e direcção dos espectáculos. Leia o relatório relativo a 2016 aqui.

Em 2009, realizaram-se 313 espectáculos taurinos e houve 666 033 espectadores. Em 2016 o número de espectáculos diminuiu para 191 e os espectadores para 362 057. Contra factos, não há argumentos e infelizmente os números falam por si. No entanto, não podemos baixar os braços e é necessário reestruturar rapidamente a forma de comunicar a Tauromaquia!

As corridas de toiros são uma actividade artística e económica que faz parte da identidade cultural portuguesa, como tal, tem de se adaptar ao século XXI. É muito importante existir uma estratégia de comunicação e utilizar correctamente as principais técnicas do marketing e da gestão cultural.

A evolução tem de ser obrigatoriamente a palavra de ordem! As mentalidades conservadoras e retrógradas têm de desaparecer deste meio, caso contrário quem vai sofrer é a Festa Brava. Os anti-taurinos estão organizados e são eficazes na forma como comunicam as suas ideias junto da população e gradualmente têm conseguido alguns resultados, nomeadamente junto das grandes empresas multinacionais e nacionais, que nos últimos anos não querem estar associadas à Tauromaquia e quem sofre com isso são os promotores das corridas de toiros.

É quase um milagre organizar um espectáculo da envergadura de uma corrida de toiros, tendo única e exclusivamente como fonte de receita, a venda de bilhetes.

A grande maioria dos espectáculos a nível nacional, vive em grande parte de duas fontes de receita: os patrocínios e a venda de bilhetes. Exemplos disso, são os grandes festivais de música, que até no nome têm a presença do patrocinador principal: NOS Alive, Super Bock Super Rock, MEO Sudeste, Vodafone Mexefest, Caixa Alfama.

Os patrocínios nos eventos culturais e nos principais festivais de música realizados em Portugal, representam entre 50% a 20% do orçamento destes eventos, quer saber mais? Então leia este artigo na revista Sábado.

As marcas apostam muito nos eventos culturais, só não apostam é na Tauromaquia, porque o trabalho dos anti-taurinos é eficaz e os taurinos em vez de responderem com a garra e a valentia que os caracteriza (salvo raríssimas excepções), acobardaram-se! Foram ultrapassados e pararam no tempo! Acham que se deve comunicar, publicitar e vender as corridas de toiros, como se fazia à 30 anos atrás. Meus amigos, os cartazes de parede nas estradas nacionais e os carros com altifalantes já eram!

Onde estão os novos paradigmas comunicacionais?

Onde está uma estrutura profissional de comunicação nos promotores de espectáculos tauromáquicos?

Onde estão as bases do marketing digital? Onde está um conjunto de variáveis controláveis que influenciam a forma como os consumidores respondem ao mercado?

Onde está o conceito de marketing mix (Produto + Preço + Distribuição + Comunicação) a funcionar em prol da Festa Brava?

Não estão meus amigos. Porque nada disto existe na Tauromaquia em Portugal! Custa muito escrever isto, mas é a realidade em que vivemos.

Existe sim, uma empresa que tem feito um grande esforço para manter viva a Festa Brava em território nacional, é a empresa do Campo Pequeno e não sou eu que o digo. É o Mundotoro que o diz (o site taurino mais conceituado a nível mundial) não acredita? Então leia o aqui o que eles escreveram sobre a Tauromaquia portuguesa.

Há cerca de um ano, o Hélder Milheiro, rosto da Federação Protoiro, alertou no jornal Briefing, para a importância da Tauromaquia adaptar-se ao século XXI. O artigo intitulado “Tauromaquia 2.0” (numa clara alusão ao conceito “web 2.0”), abordava esta questão de uma forma pertinente, mas parece que ficou no esquecimento dos principais agentes do mundo taurino…

Como é que é possível que esta arte performativa que é tão bem aceite na nossa população – a maioria dos portugueses defende que touradas favorecem a imagem do país no exterior, segundo um estudo da eurosondagem realizado em 2011 – esteja a ser tão mal tratada? A Tauromaquia não pode estar de costas voltadas para um Mundo cada vez mais global, onde as raízes culturais estão em voga diariamente.

Será que os valores que existem dentro da arena, são colocados em prática nos bastidores das touradas? Não me parece… A união entre os agentes taurinos é escassa e abertura ao mundo global em que estamos inseridos é demasiado lenta.

Basta ver quantos órgãos de comunicação social de cariz generalista abordam a temática taurina. Pouquíssimos, e os que fazem normalmente ou é para denegrir ou para mostrar alguma tragédia, em busca de audiências momentâneas. Excepção feita para RTP que transmite 4 corridas anuais (já nem um magazine semanal produz), o jornal Correio da Manhã (que durante o Inverno, nem sequer publica as crónicas taurinas na versão em papel) e meia dúzia de reportagens na revista Flash, em que os toureiros e as suas famílias surgem sempre encostados a um fardo de palha ou a passearem a cavalo no meio do campo. Pessoal, isso está démodé, vejam por exemplo as reportagens do Caetano Ordonez ou do Manzanares na Hola.

Quando alguém, quer fazer um algo de novo, trazendo uma “lufada de ar fresco” como é o caso do BullFest (18 de Fevereiro, no Campo Pequeno, um evento organizado pela Federação Protoiro), aparecem logo meia dúzia de “velhos do Restelo” a criticar… Como se alguma vez na vida, essas personagens de banda desenhada contribuíssem para a divulgação da Tauromaquia.

Isto para não falar, da dificuldade que existe no meio taurino em aceitar novas formas de pensamento e receber pessoas que têm as suas origens noutros meios que não o taurino, mas que querem contribuir com os seus conhecimentos, com o seu trabalho e com a sua paixão para a evolução e sobrevivência da Tauromaquia em Portugal. Aí é quase um milagre ser aceite e respeitado neste meio. A “exigência” (ou falta dela…) é tal que parece que estamos em Oxford ou em Harvard… Participar na conferência de Davos ao pé disto, é uma brincadeira para meninos do coro dos salesianos.

A Tauromaquia tem de evoluir com humildade e com honestidade. A Festa tem de ter verdade e emoção, mas também precisa de ter um pensamento liberal, para aceitar uma mudança que é mais do que natural.

Na vida tudo muda e tudo evolui: a ciência, a economia, a tecnologia, a saúde, o desporto. A Tauromaquia não pode ser uma excepção e tem urgentemente de se adaptar à realidade sócio-cultural do século XXI. A Festa Brava tem obrigatoriamente de evoluir de forma rápida e eficaz! Os modelos de comunicação estão completamente desactualizados, existe demasiado amadorismo e pouco profissionalismo (devia ser exactamente o contrário), é urgente repensar a forma de vender o produto cultural e de lazer que é Tauromaquia, num mercado cada vez mais competitivo e global, onde os hábitos dos consumidores alteraram-se imenso nas últimas décadas.

Já lá vai o tempo em que se vivia numa ditadura e os jovens eram obrigados a ir para a Guerra do Ultramar, em que se demorava um dia para chegar ao Algarve, em que um bilhete de avião custava uma fortuna, e em que os telemóveis e a Internet eram um produto de ficção cientifica. No fundo nessa altura, Portugal resumia-se a 3 F – fado, futebol e Fátima.

Meus amigos, hoje em dia a oferta cultural é vastíssima, o Coliseu dos Recreios já não é a maior sala de espectáculos coberta em Portugal e o teatro de revista cheira a mofo e já não faz sentido nenhum. O Eusébio, a Amália Rodrigues e o Mário Soares já morreram. Hoje em dia temos um Cristiano Ronaldo, uma Mariza e uma Ana Moura, um Marcelo Rebelo de Sousa e um António Costa. Tudo muda e tudo evolui.

Vejam por exemplo, a forma como o fado (a vertente musical mais próxima do mundo dos toiros) se adaptou nas últimas décadas à nossa sociedade. Hoje em dia já não vemos fadistas de xaile, a cantar fados tristes e enfadonhos. Vemos mulheres atraentes, com grandes vozes que percorrem as principais salas de espectáculos nacionais e internacionais, a divulgar o sentimento escrito pelos grandes poetas portugueses. Vemos parcerias com artistas estrangeiros de renome e nacionais de outras vertentes musicais (Mariza e Boss AC ou Ana Moura e HMB). Vemos o fado em quase todos os órgãos de comunicação generalista. Até a rádio Comercial, a estação mais ouvida de Portugal, passa alguns fados.

Caríssimos aficionados e responsáveis pela Tauromaquia, quem não sabe inventar, copia, mas copia bem feito!

Está na hora de mudar! Está na hora de evoluir!

 

fontes: IGAC, Briefing, Eurosondagem, revista Sábado, Mundotoro, Protoiro

fotos: Julian Lopez – Mundotoro