Faleceu Mestre David Ribeiro Telles, um ícone da tauromaquia portuguesa e um modelo na arte de bem montar a cavalo. Aos 88 anos de idade, vitima de doença prolongada, foi na sua sempre estimada Herdade da Torrinha, que o Mestre disse adeus ao Mundo.

Nasceu em 1927 e toureou pela primeira vez em público em 1945, na vila de Coruche. Recebeu a alternativa no Campo Pequeno em 1958, das mãos do cavaleiro Alberto Luís Lopes e tendo como testemunha, os novilheiros espanhóis Abelardo Vergara e Curro Romero (que anos mais tarde viria a ser uma das maiores figuras do toureio a nível mundial) numa noite em que se lidaram toiros de Assunção Coimbra.

Ao longo da sua carreira toureou em diversos países do mundo taurino e não só, como por exemplo em Macau, Angola e Moçambique.

No Faenas TV preferimos não inventar, apesar de eu ter ido algumas vezes Torrinha e ter tido oportunidade de conversar com o Mestre David em diversas ocasiões, nomeadamente no tempo em que eu tinha lições de equitação com o seu neto Manuel Telles Bastos.

Considero que a melhor maneira de conhecer a carreira desta grande figura do toureio, é recorrendo as suas próprias palavras. Por isso recorro à revista “Novo Burladero” (uma verdadeira enciclopédia da tauromaquia portuguesa) e com a devida vénia ao João Queiroz, transcrevo excertos desta belíssima entrevista (realizada a propósito dos 30 anos de alternativa do patriarca da família Ribeiro Telles) sobre a carreira de um Senhor que marcou e de que maneira a tauromaquia nacional.

Sobre os seus inícios como cavaleiro e equitador:

“Comecei a aprender a montar com o meu avô, que me corrigiu a cavalo e me ensinou aquilo que sei. Depois, foi um discípulo do meu avô quem me foi acompanhando e com o qual fui aumentando os meus conhecimentos. Refiro-me ao senhor Fernando Andrade que foi excecional equitador, com quem muito aprendi. Para além do meu pai, que também montava muito bem, e com quem eu andava muito no campo. Isto no aspeto de andar a cavalo. No que diz respeito ao toureio, fiz-me no campo, convivendo com os campinos, defendendo-me dos toiros, e depois captei muito do Simão da Veiga e do António Luís Lopes. Foi quem mais escutei quando comecei a tourear. Não posso deixar de referir também outro homem que teve enorme influência na minha vida de toureiro. Refiro-me a José Tanganho, que veio viver aqui para a Torrinha já depois de eu ter a Alternativa, e que era muito observador, e foi muito importante para mim tê-lo a meu lado. Mais tarde, também ouvi muito, mas muito o senhor João Núncio, mas numa altura em que já era profissional. E foi assim que me fiz toureiro”.

Falando sobre a relação entre os toureiros no seu tempo:

“Era tudo diferente, essencialmente no contato dos toureiros uns com os outros. Hoje os toureiros vivem num ambiente que eu sinto que não é o mais propicio a que se saiba de toiros e do cavalo. Nós vivíamos mais ligados uns aos outros, discutíamos mais sobre o cavalo. Íamos para as corridas com mais tempo, vivíamos as corridas mais intensamente, e quando corridas acabavam continuávamos a viver o seu ambiente, discutíamos sobre as suas incidências. E depois o toiro desse tempo punha-nos mais problemas. Hoje o toiro está mais selecionado e apresenta menos problemas do que os daquela altura. Hoje conversa-se muito menos sobre o toiro, e isso não é bom! Recordo-me que nesse tempo havia reuniões, festas, picarias, enfim, havia sempre pretexto para nos juntarmos, para vivermos o campo com mais intensidade. E isso proporcionava mais um ambiente taurino do que hoje. Havia tertúlias onde se falava de toiros, onde só havia os mais velhos a contarem historias, enfim era o outro tempo”.

Os primeiros tempos como cavaleiro tauromáquico:

“De inicio não me custou romper porque tive sorte. A verdade é que trazia um bom ambiente da minha carreira de amador, e tive a sorte de ter uma Alternativa interessante. Foi isso que me ajudou a romper. Para além disso, tinha o apoio da empresa do campo pequeno, na época do senhor, José Ricardo Domingos, que me pós varias vezes em Lisboa. Logo a seguir à Alternativa, toureei na feira de Santarém e também tive sorte. Enfim, tive um bom começo que me ajudou a caminhar. O que me custou mais, foi manter o nível alcançado. Repare que o Sr. João Núncio não toureou no ano da minha alternativa, 1958, reaparecendo no ano seguinte. E das 14 corridas que toureou, toureei 11 com ele, e dessas 11, 9 foram no campo pequeno. E aí tive que me aguentar! Já tinha mais “medo” dele que nem o podia ouvir falar no seu nome. Depois de  estar um ano sem tourear, voltou na sua plenitude e toda a gente estava desejosa de o ver tourear e eu tive que me aguentar, vi-me aflito com ele, em especial nessas 9 corridas que toureei com ele no campo pequeno. Mas acabei por ter sorte e fui mantendo.”

Mestre David Ribeiro Telles, sobre as suas referências no toureio a cavalo:

“Para lhe ser sincero, eu gosto de todos os toureiros, porque gosto tanto de toureio a cavalo que só não gosto de algum que deixe de ter respeito por qualquer regra que vá em desrespeito do próprio toureio. Mas claro que há toureiros, uns antigos outros modernos, que me sensibilizaram muito. Quanto ao António Luís Lopes, viu tourear muitas poucas vezes, mas como depois convivi muito com ele, tenho uma ideia do grande toureio que foi. Depois o Sr. João Núncio e o Simão foram toureiros de que gostei imenso. Quando toureavam os dois juntos, cada qual com o seu estilo bem demarcado, mas ambos cultivando a regra de tourear bem, de andar bem a cavalo, eram dois homens cheios de interesse. E a seguir a esses, vi o José Casimiro filho, um homem que toureava com muita intuição, vi o Murteira o alberto Luís Lopes, o Dr. Salgueiro, tudo gente que toureava muito bem. “

As regras do toureiro a cavalo para Mestre David Ribeiro Telles:

“Há realmente bases que julgo sem elas não se pode tourear a cavalo. Repare que eu digo “tourear a cavalo” dentro do conceito do “verdadeiro tourear a cavalo”. E uma dessas regras fundamentais é gravar de alto a baixo e ao estribo. A sorte em si pode ser de terrenos cambiados ou uma tira, pode o que quiser, mas tem que se receber o toiro ao estribo. Ai é que resido o valor, pois nessa situação, há ainda o cavalo para passar no remate da sorte, é ai que o cavalo tem que rodar no píton. Depois, também se deve dar primazia ao toiro, deixá-lo arrancar, não lhe aparecer de surpresa. Deve-se também dobrar com os toiros depois de por o ferro, rematando-se por dentro as sortes, ao contrario do que hoje tanto se faz, em que se vê o alivio do cavaleiro que remata para o lado contrario, para a esquerda. Enfim, essas são as bases que eu vejo para se tourear bem a cavalo. Mas antes disso tudo, como é logico tem que se saber montar a cavalo. Repare que o cavalo tem que formar um conjunto com o cavaleiro, sem que isso se torne numa luta. O cavalo tem que ter a sua personalidade, mas isso não quer dizer que a tenha através de uma luta com o cavaleiro.”

Para Mestre David não basta ferrar ferros, para se tourear tem que se lidar os toiros:

“O toiro, quando acaba a atuação do cavaleiro, tem que estar lidado. Ou antes, deve estar lidado. Se o toiro estiver só com os toiros em sida e só estiver lidado, na minha maneira de ver não está toureado. Lidar o toiro é fundamental para se fazer o toureio a cavalo. O cavaleiro tem que saber andar com o toiro, saber onde o deve deixar conhecer os terrenos que deve pensar, tudo isto sem se servir de habilidades para se defender do toiro, mas antes escolhendo os terrenos ideias para se tourear. Isto é que é o verdadeiro toureiro. E os cavaleiros do meu tempo lidavam os toiros! quantas vezes os forcados nos pediam para lidar mais um bocadinho para pormos mais 1 ferro, para que os toiros fiquem mais aptos para a pega, pois é lógico que um toiro esteja lidado tem que fazer menos mal que outro que esteja inteiro e sem ser lidado”.

As melhores atuações da carreira de Mestre David:

“Lembro-me de um toiro que toureei em Lisboa, com o ferro do Sr. João Núncio, quando ele comprou a ganadaria ao Urquijo, em que alternei também com ele. As coisas correram bem em ambos os toiros, mas num deles, saiu-me tudo realmente extraordinário. Foi realmente um dos meus maiores triunfos. Também recordo uma atuação em Sevilha, com um toiro do mais agradável que há e perante um publico sem igual, já tenho dito aos meus filhos que quem não toureou em Sevilha não sabe o que se sente quando aí se triunfa. Também uma vez em Madrid, numa feira de Santo Isidro, em que toureei um toiro do marques de Domecq, no cavalo “ARMILLITA”, fiquei muito contente com essa atuação. Enfim, talvez essas 3 sejam as atuações que, assim de repente, recordo com mais sabor. Más também estive, mas essas nunca nos gostamos de lembrar”.

Mestre David, um toureiro do Mundo inteiro:

“Eu gostava imenso de andar de um lado para o outro, não era toureiro para estar aqui parado. Assim que me surgiu uma fuga, aproveitava logo. Eu tinha um bocadinho espirito de aventureiro e gostava muito de ir por aí fora. Toureei muito em Espanha, adorava la tourear e conviver naquele meio taurino todos sabemos que Espanha tem. Também fui bastante a França, quando Nuno Salvação Barreto começou a dar lá corridas, e toureei em angola, Moçambique, Macau… andei por aí! “.

O público para Mestre David Ribeiro Telles:

“O público é sempre bom com os toureiros. Mas o de hoje é diferente numa coisa: é mais emocional, não sabe esperar, quer divertir-se momentaneamente, quer mais movimento no toureiro, quer uma coisa mais mexida. E o publico de antes, esperava… e entendia. Hoje, por exemplo, é muito difícil meter um cavalo novo. Hoje o publico, talvez pelo elevado preço do bilhete, quando chega à praça quer divertir-se logo. Antes, quando queríamos meter um cavalo novo, e fazíamos constar isso, o publico tinha curiosidade em ver o que acontecia. O publico de antes era mais conhecedor, estava mais dentro do assunto.”

A importância da critica para Mestre David Ribeiro Telles:

“… os críticos do meu tempo eram mais conhecedores do que os de hoje. Pelo menos na generalidade, pode ter a certeza. Eu conheci um bom grupo de críticos, o Nisa da Silva, o Fernando Baptista, o Cabral Valente, foi um critico que muitos toureiros não gostavam, mas a verdade é que um bom critico. Claro que também havia outros que não eram tão bons, mas havia realmente um grupo de pessoas entendidas. “

Mestre David, e o seu tipo de toureiro de toiro e de cavalo:

“Para o meu toureiro, como eu não era um toureiro muito alegre, gostava de ter um toiro com um bocadinho de ímpeto e que metesse um bocadinho de emoção. Era também indispensável ter velocidade para andar atras de mim, pois como me agradava “andar” com os toiros, preferia esse toiro que fosse movimentado, que como agora se diz, tivesse mobilidade. Quanto ao tipo de cavalo que mais ia comigo, era o luso-árabe, como por exemplo o “perdigão”, e também “Armillita”, que embora fosse quase puro Veiga (os Veigas têm lá um bocadinho de árabe), era também desse género. Os cavalos, para mim, tinham de ser luso árabes ou Peninsulares, mas com muito Veiga. Para mim o cavalo Veiga, é um cavalo fora de serie, formidável “.

Mestre David, sobre os 30 anos da sua alternativa:

“Graças a Deus tenho tido saúde para ainda poder andar a cavalo e tourear. Agora se não fiz mais, foi porque não fui capaz. Ao longo destes 30 anos estive sempre a aprender, e agora, no final da minha vida de toureiro, vejo que estou melhor em muitas coisas. Vejo que realmente ao longo destes 30 anos, e digo com toda a sinceridade, estive sempre a aprender. Quem julgar que já sabe tudo, está errado, nunca há uma meta que se possa atingir. Quando se chega a uma, há logo outra adiante que ficou por alcançar.

Entrevista publicada na Revista “Novo Burladero”, conduzida por João Queiroz

Foto: DR