Mário Coelho morreu esta madrugada no Hospital de Vila Franca de Xira, vítima de covid-19 Tinha 84 anos e foi um dos melhores toureiros de Portugal

O maestro Mário Coelho, nasceu a 25 de março de 1936, em Vila Franca de Xira.

A paixão pela tauromaquia começou muito cedo, embora durante muitos anos tivesse de conciliar com outras profissões, como o próprio referiu em entrevista ao Faenas TV em 2017, Sou um toureiro sem escola, a minha aprendizagem foi nas largadas e nas esperas de toiros. Tive um compromisso e uma responsabilidade, que era trabalhar na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, onde comecei a trabalhar aos 9 anos. Fui aguadeiro, passei depois a ajudante de canalizador e cheguei a canalizador chefe, na altura em que era bandarilheiro praticante”. A prova alternativa de bandarilheiro seria a 13 de setembro de 1958, na praça de toiros da Nazaré.

Rapidamente o toureiro de Vila Franca de Xira tornou-se numa das principais referencias entre os bandarilheiros integrando as quadrilhas das principais figuras do toureio dessa época em Portugal

como por exemplo os matadores de toiros Manuel dos SantosJosé Júlio e Diamantino Viseu.


Em Espanha toureava muito e o seu valor era reconhecido nas praças de toiros mais importantes, Todos os anos toureava cerca de 40 corridas de toiros em Portugal e achei que o país era demasiado pequeno, por isso decidi ir para Espanha, onde sai inicialmente com o Paco Corpas e mais tarde com o Andrés Vasquez, que tinha um sentido de temple como eu não vejo hoje em dia. Tratava os toiros com uma suavidade incrível, foi um dos que mais vezes saiu em ombros pela porta grande de Madrid.”

Foi nessa altura que decide trocar a prata pelo ouro, tornado-se matador de toiros, Entretanto, achei que a minha carreira de bandarilheiro estava a chegar ao fim e decidi, tomar a alternativa de matador de toiros. Num mês fiz 12 novilhadas picadas em diversas praças de primeira categoria, e recebi a alternativa a 27 de julho de 1967, em Badajoz. Um dia que não tem paralelo a nível de felicidade, foi o concretizar de um sonho de criança”.

Em 1975 confirmou a alternativa na Monumental do México e a 14 de maio de 1980, confirmou a alternativa na Monumental de Madrid, durante a Feira San Isidro.

Mário Coelho foi um cidadão do Mundo e a sua carreira é reflexo disso mesmo, toureou em Portugal, Espanha, FrançaMarrocosCanadáEUAAngola e Moçambique, mas sobretudo pelas praças da América Latina como MéxicoVenezuelaPerúColômbia e Equador.

Foi um toureiro admirado pelas grandes figuras da Cultura e da Literatura dos anos 60 / 70, como por exemplo Pablo PicassoHemingwayOrson Welles e tantos outros, com quem conviveu de perto ao longo da sua vida de toureiro.

Na sua trajectória de 1955 a 1990, Mário Coelho por todos os países onde andou toureou 3.149 toiros em 1.472 corridas e em 205 festivais.

No campo, tentou em 139 ganadarias do mundo, incluindo Portugal sendo em algumas delas o seu conselheiro durante 20, 30 ou mais de 40 anos. Em todos os seus 50 anos de profissão, tentou 158 toiros puros, 1 292 novilhos, 13 416 vacas e novilhas e retentou 310 já corridos.
Ao todo, toureou mais 19 000 reses bravas, o que lhe deu uma riqueza incalculável de conhecimento, “Eu fui um toureiro tentador, não me levem a mal, não pensem que é vaidade, mas eu devo ter sido o toureiro que mais vacas toureou no campo, ao todo, toureei mais de 14 mil vacas no campo, desfrutava e toureava para mim.”

Durante a sua trajetória como matador de toiros, Mário Coelho alternou com as maiores figuras do toureio casos de António OrdoñezPaco CaminoPaco OjedaJosé Mari ManzanaresPalomo LinaresCapeaDámaso GonzálezManolo Martinez e Eloy Cavazos e tantos outros.

Foi durante muitos anos, considerado o matador que melhor bandarilhava no mundo.

A 12 de Setembro de 1984, na Moita do Ribatejo Mário Coelho matou um toiro, numa corrida picada onde compartia cartel com “Niño de la Capea” e Paco Ojeda na praça “Daniel do Nascimento”, na Moita, deu uma estocada fulminante no toiro “Corisco”, da ganadaria Ernesto de Castro. Por tal acto seria julgado em tribunal e ilibado.

Apaixonado pela cultura e pela política o maestro Mário Coelho também foi maçon Fiz parte da maçonaria, e fui sempre um convicto católico. Dei-me com pessoas extraordinárias. A maçonaria tem valores fantásticos e há um que me tocou mais, a irmandade. A amizade, a pureza que eu sentia nessas amizades que levam 30 ou 40 anos e foram pessoas com quem eu aprendi muito. É interessante porque eu nunca fiz um pedido na maçonaria, é uma irmandade em que se ajudam uns aos outros no bom sentido da palavra, e a minha pureza era mais de captar conhecimento do que propriamente ter algum interesse para benefício próprio nessas amizades”.


Despediu-se das arenas 1990, no Campo Pequeno, a cerimónia do corte de coleta foi realizada pelo seu filho, um dos momentos mais simbólicos da vida do toureiro “Havia lenços brancos e muitas lágrimas”, recordou mais tarde, em declarações ao Jornal Farpas.


Em outubro de 2001 foi aberta ao público a Casa Museu Mário Coelho, localizada junto à Igreja Matriz de Vila Franca de Xira, na habitação onde o toureiro nasceu, resultado de uma parceria estabelecida entre este, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira.


Em 2005, ano em que comemorou 50 anos de toureio, Mário Coelho publicou um livro onde estão reunidos textos autobiográficos, com o título “Da Prata ao Ouro”, com prefácio de Agustina Bessa-Luís. Já este ano, o jornalista e escritor António de Sousa Duarte escreveu a sua biografia, um livro que foi apresentado por Manuel Alegre no Campo Pequeno no Dia da Tauromaquia no passado dia 29 de fevereiro.

Em entrevista ao Faenas TV, questionado como queria ser recordado, Mário Coelho respondeu da seguinte forma “Como homem e como toureiro! Um homem com carácter, que desde muito novo traçou um caminho e nunca se desviou dele. Um homem que se deita à noite e põe uma perna em Madrid, outra em Sevilha, um braço em Pamplona e outro na Corunha. Significa isto, que dorme bem com a sua consciência. Ai daqueles que não conseguem dormir bem com a sua consciência e um dia que terei de fazer essa viagem longa, que venha quando Deus quiser. Vou e o meu último pensamento, será uma lembrança de ir bem comigo mesmo e com a minha consciência, caso contrário até no caixão vou-me encolher todo. E tenho a certeza de que vou bem estendido e vou em paz de espírito. Estou convicto que as pessoas que se vão despedir de mim naquele momento, vão sentir na minha cara, essa paz de espírito e esse orgulho de ter feito uma caminhada que honrou o meu país, a minha terra, a minha família e os meus amigos.”

Até sempre maestro Mário Coelho!