Nuno Casquinha é o toureiro português de quem se fala. Recebeu a alternativa de matador de toiros, em 2011, na localidade espanhola de Villanueva del Fresno (Badajoz), no entanto, as oportunidades para tourear na Península Ibérica eram escassas.

O jovem de Vila Franca de Xira decidiu arriscar, e rumou até ao Peru, para exercer a sua profissão com regularidade. Já lá vão quatro temporadas em terras sul-americanas, somando triunfos atrás de triunfos e provando a tudo e a todos que faz tudo o que está ao seu alcance para ser toureiro na sua plenitude.

Na temporada passada, veio a Portugal para tourear e triunfar na Feira de Outubro de Vila Franca de Xira. Este ano voltou à Palha Blanco, para confirmar o excelente momento que atravessa, sagrando-se triunfador absoluto, da corrida do Colete Encarnado.

Na próxima quinta-feira regressa ao Campo Pequeno, depois de 7 anos sem tourear em Lisboa.

Faenas TV (FTV) – Olá Nuno, tudo bem?

Nuno Casquinha (NC) – Olá Diogo tudo ótimo obrigado. Muito agradecido por esta entrevista para o Faenas TV e poder deste modo transmitir aos aficionados as minhas sensações.

FTV – Preparado para regressar ao Campo Pequeno?

NC – Penso que sim, agora sinto me num momento bastante bom da minha carreira, talvez o melhor, portanto creio que é o momento adequado para voltar ao Campo Pequeno. Espero que seja uma bonita noite de toiros.

“na vida tudo tem um momento e nada acontece por acaso”

FTV – Há quantos anos não toureias em Lisboa?

Não toureio em Lisboa há 7 anos. Já passaram alguns anos desde então, mas penso que na vida tudo tem um momento e nada acontece por acaso. Agora creio que volto por méritos próprios, depois de várias temporadas triunfais no estrangeiro e dos êxitos em Vila Franca de Xira, em outubro do ano passado e neste colete encarnado. Também nestes anos amadureci como toureiro e penso que posso dar uma dimensão diferente da que tinha dado anteriormente.

FTV – Que significado tem este regresso à praça de toiros, mais importante do país depois do teu grande triunfo no Colete Encarnado deste ano?

NC – Significa imenso para mim este regresso ao Campo Pequeno, é um prémio e um reconhecimento por parte da empresa, face às temporadas triunfais que tenho tido no Peru. Depois da minha atuação no Colete Encarnado, a exigência e a pressão sobe um pouco mais, porque os aficionados vão querer ver me com esse nível de disposição e entrega. Sou consciente dessa responsabilidade, mas bem-vinda seja ela, era algo que já ansiava há muito tempo.

“Os aficionados cada vez têm reconhecido mais a minha luta fora de Portugal, mas havia que confirmar que os êxitos no Peru, não eram obra do acaso”

FTV – Achas que finalmente, os empresários e os aficionados em Portugal reconheceram finalmente o teu valor?

NC – Os aficionados cada vez têm reconhecido mais a minha luta fora de Portugal, mas havia que confirmar que os êxitos aqui não eram obra do acaso, senão de pouco valia o que tenho feito cá. Nesse aspeto a corrida da feira de Outubro em Vila Franca já foi importante e esta do colete encarnado ainda teve uma repercussão maior, talvez pela importância e exigência da ganadaria que tinha em frente. Senti que esta foi a chamada de atenção que tanto necessitava para que empresários e aficionados começassem a acreditar de verdade em mim.

FTV – O quê que os aficionados podem esperar de ti na noite de 2 de Agosto?

NC – Espero poder confirmar e aumentar tudo o que se dito de mim ultimamente. Gostaria de estar com um nível de entrega e ao mesmo tempo tranquilo para entender os toiros e que não me pese a praça. Por vezes queremos fazer tanto que tudo nos sai precisamente ao contrário.  Neste aspeto, eu gosto de ser sempre prudente nas minhas declarações, prefiro guardar as palavras e as energias para quando saia o toiro.

“estou muito agradecido a Deus por estar a desfrutar desta etapa, tão positiva na minha carreira”

FTV – Vais querer “apertar” com o António João Ferreira? As amizades não entram na arena?

NC – Quando estamos na arena não existe amizade, mas sim companheirismo. Obviamente cada um de nós ira fazer tudo por sair triunfador, no entanto eu sempre respeito os meus alternantes e neste caso, à parte de respeito tenho grande admiração pelo António João Ferreira, toureiro com grande valor, sempre fiel ao seu toureio e tal como eu, um grande lutador. Sei que ele também vai apertar comigo!

FTV – Depois do Campo Pequeno, regressas logo ao Peru ou ficas por Portugal?

NC – Depois da corrida do Campo Pequeno regresso logo ao Peru porque toureio dia 7 em Mache (Trujillo). É um pouco incómodo andar constantemente a viajar dum país para outro, mas foi o que sempre desejei, tourear tanto, por isso, estou muito agradecido a Deus por estar a desfrutar desta etapa tão positiva na minha carreira.

FTV – Para além do Campo Pequeno, tens mais contratos para esta temporada em Portugal?

NC – Para além da corrida de dia 2 de Agosto, estou também contratado para tourear dia 11 de Setembro na importante feira da Moita do Ribatejo, uma praça onde tenho enorme ilusão em debutar. Regressarei a Vila Franca de Xira na corrida dos 117 anos da Palha Blanco e estarei também presente dia 21 de Outubro em Santarém na corrida de despedida do meu bandarilheiro e amigo Pedro Gonçalves.

“tenho vivido (no Peru) experiências muito bonitas que me têm dado muita moral, assim como outras muito duras que serviram para ganhar resistência, poder de sacrifício e superação, isso fez fortalecer imenso a minha mente”

FTV – Há quantos anos estás no Peru?

NC – Este já é o quarto ano que estou no Peru. Estive nos anos de 2012 e 2013, na temporada passada e neste 2018.

FTV – Que balanço fazes destes anos no Peru?

NC – O balanço destes anos no Peru é extremamente positivo. Foi sem dúvida uma das melhores (e mais arriscadas) decisões da minha vida, ter me aventurado a vir até um país totalmente desconhecido para mim. Amadureci como pessoa e como toureiro. Tenho vivido experiências muito bonitas que me têm dado muita moral, assim como outras muito duras que serviram para ganhar resistência, poder de sacrifício e superação, isso fez fortalecer imenso a minha mente.

“tenho de aguentar, não posso regressar a Portugal como um fracassado, mas sim como um triunfador!”

FTV – Quais foram as principais dificuldades que enfrentaste quando chegaste aí?

NC – De início as coisas não foram fáceis, o meu apoderado (Aldo Risco) nunca tinha levado nenhum toureiro, portanto não era conhecido no meio. Eu também era um desconhecido aqui, foi como começar do zero outra vez, conquistando os contratos um a um. De início tive de tourear de tudo, até toiros de meia casta, mas sempre tentei fazer as coisas com pureza, sempre tourear com verdade, independentemente do que tinha em frente. Creio que esse foi o segredo da minha evolução, nunca ir pelo caminho fácil dos triunfos sem conteúdo. Recordo me também que nesses primeiros meses que pouco toureava, dizia para mim mesmo: tenho de aguentar, não posso regressar a Portugal como um fracassado, mas sim como um triunfador!

FTV – O toiro do Peru tem uma investida muito diferente do toiro “ibérico”?

NC – O tipo de toiro do Peru é muito diferente do toiro da Europa. Embora seja variável de ganadaria para ganadaria como é lógico, aqui na sua generalidade é um toiro menos repetitivo, que nos obriga a meter nos mais no terreno dele para investir e geralmente também tem uma investida mais lenta, por isso tem de se aguantar muito e o temple é fundamental para leva los muito “presos” à muleta.

FTV – O facto de estar todas as semanas a tourear, dá uma rodagem fundamental para chegar aqui e estares preparado para triunfar?

NC – Estar a tourear com tanta regularidade como o faço aqui no Peru. dá sem dúvida mais confiança e mais facilidade em entender as características de cada toiro. Mas por outro lado, é um toiro como disse anteriormente, totalmente diferente do toiro de Portugal e de Espanha. No meu caso, que geralmente chego aí no dia antes da corrida, não tenho dias para poder tourear algumas vacas para agarrar o ritmo, por isso tenho de me adaptar de forma automática cada vez que toureio no meu país.

FTV – Quantas corridas levas toureadas este ano no Peru?

NC – Este ano já levo aqui toureadas cerca de 15 corridas. Poderiam inclusive ser mais, mas este ano subimos um pouco os honorários e por essa razão em algumas corridas não chegamos a acordo económico.

FTV – E quantos contratos tens ainda por cumprir?

NC – Esta temporada tenho confirmadas mais 11 corridas, mas imagino que devem sair mais algumas. Nas idas a Portugal também tenho perdido aqui algumas, mesmo estando pouquíssimos dias no meu país, é quase um dia de voo de ida e outro de regresso, por isso não tem sido fácil chegar a todos os sítios que nos querem.

“na vida tudo chega no tempo certo, e não quando achamos que deve ser”

 

 

 

 

 

FTV – Como é o teu dia a dia aí no Peru?

NC – Eu vivo na capital, em Lima, que está na zona centro do país e por essa razão é mais fácil para viajar, tanto para norte, como para sul. Num dia de corrida às vezes viajo de avião até uma cidade próxima do sítio onde toureio e depois já se vai de carro o resto do trajeto. Outras vezes, viajo no carro do meu apoderado quando ele tem disponibilidade para me acompanhar e noutras ocasiões viajo de autocarro. Geralmente viajo de noite para poder descansar melhor, e regresso para Lima quando termina a corrida. Essa é das partes mais duras, pois às vezes temos mais de 15 horas de viagem. O país é enorme! Nos dias que não toureio, treino sempre durante a manhã, nem que seja só de salão. Às vezes vou correr para a praia. Durante as tardes costumo ler, ver vídeos e analisar defeitos para corrigir, ou até ir de vez enquanto ao cinema para distrair um pouco.

FTV – Que sonhos tens por realizar?

NC – Os sonhos têm se estado a concretizar graças a Deus. Por vezes não com a rapidez com que desejaríamos, mas na vida tudo chega no tempo certo, e não quando achamos que deve ser. Hoje em dia queremos tudo depressa e esse é um erro de muita gente da nossa sociedade. Neste momento, tendo objetivos e metas, como ir entrando nas feiras de Portugal, Espanha e França, penso mais dia a dia, corrida a corrida. Não espero chegar à meta para me sentir feliz, mas sim ir desfrutando do caminho até lá.

“as sensações que tenho quando me entrego com um toiro, são sentimentos tão fortes que nesses momentos não me trocaria por nada, nem ninguém”

FTV – Algum dia vais regressar definitivamente a Portugal ou vais sempre dividir a tua vida entre cá e o Peru?

NC – Eu gostaria de poder passar mais tempo em Portugal, mas nesta etapa as coisas estão felizmente a correr tão bem, que tenho de me “dividir” entre os dois países. Sempre quis poder tourear tanto e sentir tanto carinho e admiração, que neste momento só posso agradecer a Deus tudo o que me está concedendo.

FTV – Somos mais as perguntas que fazemos ou as respostas que damos?

NC – No meu caso, sou mais as perguntas que me faço do que as respostas que dou.

FTV – Completa a seguinte frase: ser toureiro é…

NC – Ser toureiro para mim é algo tão grande, que nem as palavras alcançam a poder explicar privilegiado e orgulhoso que estou em ser toureiro. A palavra chave, é ter paixão pelo que se faz e neste caso do toureio, o fundamental é as sensações que tenho quando me entrego com um toiro, são sentimentos tão fortes que nesses momentos não me trocaria por nada, nem ninguém. Ver uma praça entregue a ti é algo incrível!

fotos: Nuno Almeida

Nota: Nesta entrevista, utilizamos fotografias de Nuno Almeida, não só pela qualidade das imagens, mas essencialmente, pelo facto de ter sido através do Nuno Casquinha, que o Nuno Almeida se tornou fotógrafo taurino. Visitem a sua página de Facebook e desfrutem das suas fotografias. facebook.com/nunoalmeida.photography