Portugal vai ter muito em breve mais um matador de toiros. Joaquim Ribeiro “Cuqui”, vai receber a alternativa no próximo dia 19 de Agosto, na Praça de Toiros de Tijuana, no México.

Antes de partir para terras sul-americanas, o Faenas TV esteve com o toureiro da Moita e realizou uma entrevista que aborda alguns dos temas mais importantes da carreira deste jovem que passou pelas escolas de toureio da Moita do Ribatejo, de Vila Franca de Xira e de Badajoz.

Caros leitores, fiquem a conhecer melhor, Joaquim Ribeiro “Cuqui”.

Faenas TV (FTV) – Está a chegar o dia tão sonhado da tua alternativa, e tal como o teu debute com picadores (Aguascalientes, 1 de Abril de 2012) também a alternativa vai ser no México. Como surgiu esta oportunidade?

Joaquim Ribeiro “Cuqui” (JRC) – Depois do convite para o debute com picadores no México, vivi lá durante três anos onde tive muito boas atuações. No início deste ano quando regressei para tourear num Festival, as coisas correram muito bem e recebi o convite para tomar a Alternativa.

FTV – O facto de tomares a alternativa longe de Portugal, no outro lado do Atlântico, e dessa forma não ter a presença da tua família, amigos e muitos aficionados portugueses, torna mais difícil este dia?

JRC – Era, sem dúvida, mais bonito ter as pessoas de quem gosto e dos aficionados portugueses a acompanhar-me nesse dia, porém muitos emigrantes portugueses residentes na Califórnia transmitiram-me o seu interesse em estarem presentes na Corrida, o que me faz sentir muito acarinhado.

“tive momentos muito duros e outros muito bonitos”

 

FTV – O México tem sido um país muito importante na tua carreira. Em 2010, participaste num intercâmbio de 15 dias, com a Escola de Toureio de Aguascalientes e dois anos depois, foi lá que debutaste com picadores, o que recordas desses tempos?

JRC – O México marcou-me muito, porque vivi lá sozinho, praticamente 3 anos. Não é fácil estar longe da família. Fez-me crescer mais rápido, como homem e como toureiro. Foi também importante para encontrar a minha própria Tauromaquia, pois só bebendo de várias fontes podes encontrar-te a ti próprio.

FTV – Como analisas, o percurso desde o debute com picadores, até ao momento da alternativa?

JRC – Talvez não tenha sido um percurso ao nível que eu sonhava ou que queria, mas foi sempre um trajecto digno e de verdade, onde tive momentos muito duros e outros muito bonitos.

FTV – Na tua etapa de novilheiro toureaste em vários países existe só uma Tauromaquia ou existem várias Tauromaquias, que são vividas de forma diferente?

JRC – Cada lugar é único e, por isso, cada um tem a sua personalidade, as suas tradições e vivências.

FTV – Como consegues adaptar o teu toureio à investida do toiro nestes países? A investida do toiro espanhol é muito diferente do toiro mexicano?

JRC – O toiro mexicano penso que é o tipo de toiro que mais ritmo e mais devagar investe e, por isso, talvez o “olé” mexicano seja o mais longo e o mais apaixonado que existe no toureio.

A adaptação, vai com a sensibilidade que cada um tem para “acoplarse” á sua cadência, ritmo, recorrido…

“a vontade, a persistência e o querer superam tudo”

 

FTV – Em que país tiveste a atuação mais “redonda” da tua carreira de novilheiro?

JRC – Tive tardes muito bonitas, mas considero a tarde do debute com Picadores, uma tarde redonda. Embora a tarde que mais me tenha marcado, foi a corrida da Feira da Moita, com o Maestro Sebastian Castella.

FTV – Nos últimos anos tens tido poucas oportunidades de tourear, nunca pensaste em desistir?

JRC – Há momentos difíceis, dias menos bons, tardes em que toureias e as coisas não te saem, mas a afición, a vontade, a persistência e o querer superam tudo isso.

FTV – Há alguma coisa na vida que tenhas desistido?

JRC – Abdiquei de uma vida “normal” de jovem para ser toureiro.

FTV – Onde é que foste buscar forças para continuar a acreditar, que um dia conseguias chegar à alternativa de matador de toiros?

JRC – Depende de onde estava, em cada momento agarrei-me a coisas diferentes, ao treino, ao apoio de algum amigo, ao apoio da família, mas sem dúvida a força interior é o que nos leva a chegar onde queremos.

FTV – O que significou a faena que fizeste o ano passado no Campo Pequeno, num toiro cedido por José Mari Manzanares, numa corrida em que estavas de “sobressaliente”?

JRC – Foi um dia marcante para mim como pessoa e como toureiro pelo gesto humilde, de grandeza humana e de classe do Maestro José Marí Manzanares.

FTV – Ao longo da tua carreira, tiveste de conciliar o ser novilheiro com outras profissões?

JRC – Enquanto estudei na Escola de Toureio de Badajoz, trabalhei em restauração e actualmente ajudo no negócio familiar.

FTV – Passaste por várias escolas de toureio (Moita, Vila Franca e Badajoz), o que aprendeste de mais importante em cada uma delas?

JRC – Iniciei-me na Moita com o maestro Armando Soares, na qual tive muito pouco tempo, mas há uma frase que o Maestro me disse que me marcou muito, “Antes de ser, há que parecer”.

Na Escola de Vila Franca de Xira, estive com o Maestro José Júlio e talvez a sua naturalidade e torería foram algo que me impactou.

Em Badajoz, tive com o Maestro Luís Reina e António Jimenez, aí foi onde aprendi as várias sortes de tourear e evolui mais nos aspetos técnicos.

“os profissionais do Toureio deveriam dar mais valor ao toiro de rua, às largadas”

 

FTV – Quem te deu a alcunha de “Cuqui”?

JRC – O Maestro Armando Soares, no primeiro dia que disse que queria ser toureiro.

FTV – O facto de seres natural da Moita do Ribatejo, influenciou a tua paixão pela Tauromaquia?

Ser da Moita foi sem dúvida importante! Nasci nas Largadas e foi nos Festejos Populares que nasceu a minha vontade de ser toureiro. Penso que os profissionais do Toureio deveriam dar mais valor ao toiro de rua, às largadas, às esperas de toiros, às picarias… Pois muitas das vezes, é deste primeiro contacto com a Festa dos Toiros, que nasce a paixão por esta arte e que leva uma pessoa a ser Aficionada.

FTV – No toureio e na vida o que te move: a razão ou o sentimento?

JRC – Sentimento! O que não se sente, não se vive nem se transmite.

FTV – Para chegar à alternativa o caminho é feito sozinho ou com ajuda de várias pessoas?

JRC – Sem dúvida para chegar a este dia da alternativa é impossível chegar sozinho! Nada na vida se consegue sozinho…

Houve pessoas que me marcaram… A família é sem dúvida um pilar para mim, as escolas de Toureio onde estive foram uma grande ajuda na minha aprendizagem, houve boas amizades com praticamente todos os matadores Portugueses, matadores Espanhóis e Mexicanos com quem convivi, aprendi muito e me ajudaram, os Ganaderos portugueses que durante estes anos me têm aberto as portas de suas casas para puder preparar me e evoluir como toureiro, muitos amigos e aficionados que me transmitiram conselhos e as suas opiniões.

FTV – As pessoas revelaram-se mais quando estavas em baixo ou quando estavas em alta?

Rodeio-me de bons amigos e sempre se relevaram nos bons e nos maus momentos.

“os Sonhos só acabam quando morre o Sonhador”

 

FTV – A sorte é fundamental nesta profissão?

JRC – Em qualquer profissão, mas a sorte também se constrói.

 

FTV – A alternativa é uma meta ou é apenas o ponto de partida da tua carreira?

JRC – É uma meta para todos os que começamos e queremos ser toureiros mas logo de seguida torna-se num ponto de partida para alcançar outras metas da carreira.

FTV – A partir deste momento, o toureio a pé em Portugal fica com quatro jovens matadores no ativo (António João Ferreira, Nuno Casquinha, Manuel Dias Gomes e Joaquim Ribeiro “Cuqui”) com grande potencial, e temos ainda outro novilheiro a espreitar a alternativa em breve (João Silva “Juanito”). Existe quantidade e acima de tudo qualidade. Qual ou quais, os motivos para os empresários não apostarem mais nesta vertente do toureio?

JRC – Penso que há várias circunstâncias que levam a que a corrida mista ou até mesmo a corrida apeada não se façam com tanta frequência. A união e a boa relação fora da praça entre matadores, bandarilheiros e novilheiros é importante para se conseguir a união global de todas as outras partes da Tauromaquia. A união faz a força e hoje mais que nunca precisamos de ser fortes!

FTV – Achas que o facto de não a “sorte de varas” em Portugal, é uma desculpa, para haver menos corridas mistas ou só com toureio a pé?

Desculpa não é nem poderá ser. Deveríamos sim, conseguir que a sorte de varas fosse permitida pois a lide seria mais completa e as faenas podiam ter outra transcendência.

FTV – Qual a praça onde gostarias de te apresentar como Matador de Toiros?

JRC – Sem dúvida, a Praça da Moita e o Campo Pequeno.

FTV – Quais os planos que tens para depois da alternativa?

JRC – Tento não fazer planos, vivo o momento e desfruto destas semanas de preparação para o dia que sempre sonhei. Depois desse dia veremos qual o melhor caminho a seguir.

Eternamente Toureiro!”

 

FTV – O Nuno Casquinha teve de emigrar para o Peru para conseguir viver em pleno da profissão de matador de toiros. Vês no futuro essa possibilidade para ti, ter de emigrar para outro país onde existam mais oportunidades para exercer a tua profissão de forma regular?

JRC – Já o fiz, vivi três anos em Badajoz e quase outros três em Aguascalientes no México. Hoje em dia, estou mais tempo em Espanha do que em Portugal.

FTV – Qual o tipo de toureio que procuras expressar?

JRC – Gosto do Toureio clássico.

FTV – Que sonhos tens por concretizar, na vida e no toureio?

Os Sonhos só acabam quando morre o Sonhador.

FTV – Se a tua vida fosse um filme que titulo teria?

JRC – Eternamente Toureiro!

fotos: DR.