“Sou um cidadão do Mundo”

Entrevista realizada pelo jornalista, Diogo Marcelino

Mário Coelho é uma das maiores figuras da tauromaquia portuguesa, e só pela forma do seu andar, percebemos que é toureiro. Homem elegante e de fino trato, começou a sua actividade nas arenas como bandarilheiro, e foi de seda e prata que se consagrou um dos melhores do Mundo.

Em 1967, decidiu trocar a prata pelo ouro, e continuou a honrar Portugal por esse Mundo fora. Na temporada em que comemora 50 anos de alternativa de matador de toiros, o Faenas TV entrevistou o consagrado toureiro, que respondeu a todas as questões, com a frontalidade com que se punha diante dos toiros.

Faenas TV (FTV) – O que é feito de si maestro Mário Coelho?

Mário Coelho (MC) – Continuo o mesmo, com um nervoso miudinho, não paro um minuto. Levanto-me e tenho de andar constantemente em movimento e sempre com a mente a funcionar e gosto muito de sair e de conviver, mas neste capítulo sou muito seletivo. É uma coisa que o toiro nos dá, a sensibilidade de saber com uma palavra, se a pessoa sabe realmente de toiros ou não. Só gosto de falar de toiros, com pessoas que tenham um sentimento taurino.

Na vida só há uma coisa que sei, é de toiros. Não sei de pintura, nem de leis, nem de política, nem de futebol, ainda que frequente e goste dessas áreas. Dou-me à extrema vaidade de dizer que não aprendo nada com ninguém, mas aprendo todos os dias.

FTV – Considera que há falta de cultura taurina em Portugal?

MC – Salvo exceções, existe uma total falta de cultura taurina. Mais grave do que isso, é a falta de sensibilidade para a cultura taurina. A Festa atravessa neste momento uma grave situação e essa dificuldade não é criada pelas pessoas alheias, nem as que são contra ao meio taurino, é verdadeiramente devido aos que estão dentro da Festa.

Enquanto que em países como a Espanha existe uma tauromaquia, infelizmente em Portugal existem três, que não se entendem e que são inimigas umas das outras. Ai está uma das bases da gravidade da situação que estamos a passar. Falta a paixão, o sentimento, o querer aprender, a humildade. Hoje tanto os cavaleiros, como os toureiros e os forcados têm vaidade e julgam que sabem muito, mas falta uma coisa para equilibrar, a humildade, que é uma palavra que está a sair do nosso dicionário taurino.

FTV – O que é necessário para contrariar a falta de cultura taurina?

MC – Isso começa exatamente por quem monta os espetáculos. Tem de ser um apaixonado pela Festa. Eu direi mesmo que a um bom empresário implica um conjunto de paixão, lirismo e de entrega. E quando o empresário só pensa em lucrar com a Festa, não tem sentimento genuíno por ela, nem pode ajudar o espetáculo em si.

Eu conheci muitos empresários que triunfaram, que ficaram na história da tauromaquia e tudo o que ganhavam na Festa, ficava na Festa. Hoje, todo o dinheiro que sai da Festa, nem um centavo fica na Festa. Salvo exceções, o profissionalismo, a pureza e o orgulho desapareceu, e existe uma enorme falta de respeito entre os profissionais e pelo público. Falta a humildade e a volta teria de ser muito grande, teria de abranger todos os indivíduos que estão inseridos na Festa.

FTV – De acordo com a sua experiência o que mudou no meio taurino?

MC – Hoje em dia vou a uma corrida e ao segundo toiro, tenho vontade de voltar para casa. E sou um aficionado e sinto-me bem no ambiente taurino. Não é só o que se passa dentro da arena, é também o que se passa nos bastidores, a linguagem dos profissionais, o movimento e os risos dos profissionais e acima de tudo a falta de respeito pelo toiro.

FTV – E essa falta de respeito vem porquê?

MC – Porque os toiros, não estão em pontas. Porque enquanto não houver o toiro em pontas e em que o público perceba e sinta que o toiro perfura e mata, e vivam esse risco nas bancadas. Enquanto houver o toiro com umas “luvas de boxe”, que dão dez voltaretas a um forcado e que dão dez toques a um cavalo, o público não vai valorizar, nem transpirar das mãos…Agora quando sai um barrabás com cinco anos e quinhentos e tal quilos, que mete o pitón e te destroça todo por dentro, porque o corpo estranho no teu próprio corpo nunca mais se esquece. Não é uma bolada, nem uma voltareta, nem uns ossos partidos. É um corpo estranho a destruir o teu corpo lá por dentro.

Eu sofri dezanove ou vinte cornadas graves e senti-as todas. Há uma coisa que um toureiro percebe logo e tem de se mentalizar, é que nós só temos duas coisas que são nossas, a mente e o coração. O resto é plástico, e pertence ao toiro enquanto tourearmos.

FTV – Acha que existe falta de seriedade neste meio?

MC – As pessoas hoje em dia, não querem aprender. A linguagem é muito vã, independentemente da geração. É uma linguagem muito vezes sem fundamento, sem força, sem um final. Existe falta de seriedade e ai de alguém que chegue a algum lugar e saiba mais do que os outros que já lá estão. Essa pessoa é automaticamente posta de parte. E nos toiros isso é uma realidade.

Por exemplo, antigamente as ganadarias tinham todas um conselheiro, que normalmente era um toureiro. Eu fui conselheiro de dezenas de ganadarias. Estive em algumas dessas ganadarias, mais quarenta e tal anos e de repente chegam os descendentes desses ganadeiros e já não querem as minhas orientações. Porque eles querem presumir, e transmitir aos seus convidados conhecimentos que não possuem. Eu toureei 14 ou 15 mil vacas e isso tem segredo para mim? Um jovem quando está à frente de uma ganadaria, deve ter alguém ao seu lado que tenha um vasto conhecimento taurino do campo bravo e possa transmitir esses conhecimentos às gerações vindouras.

Enquanto as pessoas que fazem parte do mundo taurino, não meditarem no mal que estão a fazer à Festa, esta vai baixando de nível de dia para dia. E o mesmo se passa com os aficionados. Tu chegas a uma praça de toiros e hoje em dia, já não tens o cheiro de um perfume caro, quanto muito, podes ter o cheiro de uma colónia ou o cheiro de um sabonete barato…

FTV – Considera que existe uma tauromaquia antes e depois do 25 de abril de 1974?

MC – Completamente, o 25 de abril mudou a mentalidade das pessoas. Nós éramos um povo extremamente afável, inteligente e humilde e perdemos isso tudo. Por exemplo: um varredor de hospital, já queria ter os mesmos direitos que o médico que era diretor geral do hospital. Um enfermeiro, queria ter os direitos de um médico. Um bandarilheiro não pode ser um matador de toiros e um forcado não pode ser cavaleiro. Cada um na sua categoria e cada um com orgulho e vaidade naquilo que é e faz.

FTV – O maestro antes de ser matador de toiros, foi bandarilheiro durante nove anos, arrepende-se de não ter tomado a alternativa mais cedo?

MC – Ás vezes penso nisso e não tenho uma resposta definitiva. Sou um toureiro sem escola, a minha aprendizagem foi nas largadas e nas esperas de toiros. Tive um compromisso e uma responsabilidade, que era trabalhar na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, onde comecei a trabalhar aos 9 anos. Fui aguadeiro, passei depois a ajudante de canalizador e cheguei a canalizador chefe, na altura em que era bandarilheiro praticante.

Todos os anos toureava cerca de 40 corridas de toiros em Portugal e achei que o país era demasiado pequeno, por isso decidi ir para Espanha, onde sai inicialmente com o Paco Corpas e mais tarde com o Andrés Vasquez, que tinha um sentido de temple como eu não vejo hoje em dia. Tratava os toiros com uma suavidade incrível, foi um dos que mais vezes saiu em ombros pela porta grande de Madrid.

Entretanto, achei que a minha carreira de bandarilheiro estava a chegar ao fim e decidi, tomar a alternativa de matador de toiros. Num mês fiz 12 novilhadas picadas em diversas praças de primeira categoria, e recebi a alternativa a 27 de julho de 1967, em Badajoz. Um dia que não tem paralelo a nível de felicidade, foi o concretizar de um sonho de criança.

FTV – O maestro Mário Coelho qual foi o segredo para relacionar-se com grandes nomes da cultura, do desporto e da politica?

MC – Essas pessoas tinham sensibilidade para ler nos olhos de quem se aproxima e perceber quem é realmente interessante. Eu tinha a vantagem que eram as minhas atuações, mas depois havia as apresentações e nessas alturas tinha de existir algo mais, a simpatia, a transmissão e a cultura. Essas pessoas não se dão com medíocres. Eu tenho imensa vaidade em dizer que não sou um homem de estudos (tenho a quarta classe), não sou um homem de palavras, sou um homem de palavra e com orgulho nas suas raízes!

Sou um cidadão do Mundo, que andou por todo o lado, mas não de visita, andei vivendo nesses países, e se há um português que ama este país eu sou um deles. Entreguei-me totalmente à minha profissão e o meu orgulho era quando se dava vivas a Portugal nas minhas faenas. Sentia-me o jovem mais feliz da vida e nesses momentos era preferível um olé a Portugal, do que um milhão de pesetas.

FTV – Foi essa simpatia, transmissão e conhecimento que o maestro possui que o levaram a aceitar o convite para fazer parte da maçonaria?

MC – Sim. Fiz parte da maçonaria, e fui sempre um convicto católico. Dei-me com pessoas extraordinárias. A maçonaria tem valores fantásticos e há um que me tocou mais, a irmandade. A amizade, a pureza que eu sentia nessas amizades que levam 30 ou 40 anos e foram pessoas com quem eu aprendi muito. É interessante porque eu nunca fiz um pedido na maçonaria, é uma irmandade em que se ajudam uns aos outros no bom sentido da palavra, e a minha pureza era mais de captar conhecimento do que propriamente ter algum interesse para beneficio próprio nessas amizades.

FTV – O maestro Mário Coelho toureou em diversos países taurinos (Portugal, Espanha, França, México, EUA, Canadá etc…) onde existem tauromaquias muito diferentes umas das outras e foi sempre muito acarinhado pelo público, qual foi o seu segredo?

MC – O segredo, é o facto da maioria das pessoas querer aprender. Por exemplo, em determinada altura fui tourear ao Canadá e a banda filarmónica veio ter comigo, para saber o momento exato para tocar os pasodobles. Eu arranjei uma pessoa, que através de um lenço ia indicando à banda a altura correta de tocar a música.

Durante a corrida, as pessoas aplaudiam em momentos de um toureio menor, ou seja, enquanto estávamos num toureio clássico ou nas bases mais rigorosas do toureio, como por exemplo um natural, um derechazo ou um passe de peito eles gostavam e aplaudiam, mas era num toureio menor que vibravam mais, por exemplo, com uma manoletina, ou com um par de bandarilhas as pessoas iam ao rubro. Essas pessoas, não sabiam, mas tinham uma sensibilidade apurada. Isto vai ao encontro daquilo que eu dizia há bocado, eu prefiro um público que não percebe, mas tem vontade de aprender, do que os pseudo-aficionados ou frequentadores das praças de toiros, que pensam que sabem mas não sabem nada de tauromaquia.

Um facto curioso, duas figuras mediáticas que todos conhecem e com quem eu tive a oportunidade de privar, o cineasta Orson Welles e o escritor Ernest Hemingway. O último fica na história como um entendido de toiros, mas ele pensava que sabia mais, do que realmente sabia. Já o Orson Welles, pelo contrário, dizia que não sabia, mas foi das pessoas com quem eu convivi, que tinha maior sensibilidade e cultura taurina.

FTV – O maestro gostava mais de tourear em praça ou no campo?

MC – Eu fui um toureiro tentador, não me levem a mal, não pensem que é vaidade, mas eu devo ter sido o toureiro que mais vacas toureou no campo, ao todo, toureei mais de 14 mil vacas no campo, desfrutava e toureava para mim.

FTV – E em praça toureava para si ou para o público?

MC – Em alguns momentos em que saia o toiro sonhado, eu toureava para mim e esquecia-me do público, e isso tanto sucedia num pueblo, como numa praça de primeira categoria. Estava sozinho na arena, eu e o toiro. É uma sensação única de realização que não se paga com dinheiro. Para teres aquele momento, tu pagavas para o ter, porque aí tu dizes, já posso morrer, não há nada que me dê mais gozo do que isto. Isso aconteceu-me meia dúzia de vezes, ao longo da minha carreira como matador de toiros.

FTV – Sente-se uma pessoa realizada?

MC – Taurinamente sinto-me. Com mais êxitos, menos êxitos, com mais ou menos fracassos. Fui um jovem provinciano que nunca tive possibilidades de ter escola, mas que consegui atingir os patamares que atingi e que consegui abrir o caminho a outros, nomeadamente em Espanha na minha fase de bandarilheiro. Aos 29 anos tomei a alternativa de matador de toiros e tive 23 temporadas nessa categoria, toureando em todos os países e nas praças principais desses países, por isso, devo continuar a ser respeitado.

Em 1959, fui tourear a Barcelona. Havia um rapaz invisual que estava sempre no pátio de quadrilhas acompanhado pela mãe, e que me via a entrar na capela no incio e no fim da corrida (sim, porque eu no fim da corrida ia sempre agradecer a ajuda divina). Na corrida seguinte em que toureei nessa praça, esse rapaz ofereceu-me uma medalha, que ainda hoje conservo no meu museu. Há dias recebi uma mensagem dele, a felicitar-me pelos meus 50 anos de alternativa. Fiquei emocionado! Isto é giro, porque eu recebi felicitações desde o clube taurino de Nova York, de França, de Moçambique, dos Açores, Equador, Peru, Venezuela, México e até da Nova Zelândia. E vivo numa terra, da qual sou filho, esgotei diversas vezes esta praça com a ajuda dos meus colegas e não tenho uma única felicitação das 60 tertúlias que aqui existem.

Teve de ser uma tertúlia de Lisboa, que veio hoje a Vila Franca homenagear as minhas bodas de ouro, de matador de toiros. Tu vês, que isto é o estado na nossa afición, antigamente isto era impossível.

FTV – Um dia mais tarde, como gostaria de ser recordado?

MC – Como homem e como toureiro! Um homem com carácter, que desde muito novo traçou um caminho e nunca se desviou dele. Um homem que se deita à noite e põe uma perna em Madrid, outra em Sevilha, um braço em Pamplona e outro na Corunha. Significa isto, que dorme bem com a sua consciência.

Ai daqueles que não conseguem dormir bem com a sua consciência e um dia que terei de fazer essa viagem longa, que venha quando Deus quiser. Vou e o meu último pensamento, será uma lembrança de ir bem comigo mesmo e com a minha consciência, caso contrário até no caixão vou-me encolher todo. E tenho a certeza de que vou bem estendido e vou em paz de espírito.

Estou convicto que as pessoas que se vão despedir de mim naquele momento, vão sentir na minha cara, essa paz de espírito e esse orgulho de ter feito uma caminhada que honrou o meu país, a minha terra, a minha família e os meus amigos.

fotos: DR.