No domingo 30 de março de 2019, o bandarilheiro David Antunes faz a sua despedida das arenas num festival com um cartel cheio de atractivos na praça de sua terra natal, Vila Franca de Xira.

Caríssimos aficionados/as David Antunes na primeira pessoa

Faenas TV (FTV) – Como surgiu a sua afición pela festa brava?

David Antunes (DA) – Desde muito cedo, praticamente desde que nasci, o mundo do toiro fascinou-me. O ambiente taurino de Vila Franca e a família fizeram com que essa paixão pelo mundo do toiro desenvolve-se cada vez mais em mim.

FTV – Em que medida os seus familiares influenciaram o gosto por esta arte e em especial pelo toureio a pé?

DA – Desde muito pequeno fui viver para a quinta do meu tio José Júlio. Ai treinavam uma grande quantidade de profissionais todos os dias de manhã e á tarde. Apareciam bandarilheiros, novilheiros, matadores de toiros e foi assim que se foi construindo desde muito jovem a paixão pelo toureio a pé.

FTV – Lembra-se da primeira vez que agarrou num capote ou muleta?

DA – Não me lembro da primeira vez que peguei num capote ou muleta, mas lembro-me da primeira vez que me pus diante de uma bezerra, foi na herdade do ganadero José Dias, em Salvaterra de Magos. Foi a campo aberto, numa reportagem que o meu tio José Júlio fez para uma revista. Foi uma sensação única que me fez querer repetir muitas vezes e até que possa o farei, mas a partir do dia 31, só no campo com os amigos.

FTV – Na altura quem eram os seus ídolos no toureio?

DA – Como é natural, o meu tio José Júlio e o maestro Victor Mendes, que nessa altura do seu apogeu sempre que vinha a Portugal, ia à quinta do meu tio treinar.

Naquela altura também era fã do Manzanares, Julio Robles, “Niño de la Capea”, Curro Vasquez, Ortega Cano e Paco Ojeda.

No toureio a cavalo Mestre Baptista, João Moura e José João Zoio, mais tarde Paulo Caetano, Rouxinol, António Telles. Por sinal as três grandes casas que representei.

FTV – Inicialmente o David foi novilheiro, como foi o seu percurso profissional, nesta etapa?

DA – Comecei muito jovem em bezerradas, que se realizavam um pouco por todo o país. A minha carreira como novilheiro foi muito curta, praticamente tive dois anos. Toureei no Campo Pequeno três vezes, como novilheiro, depois em Vila Franca, Setúbal, Albufeira e na Califórnia (EUA).

FTV – Para quem nunca o viu tourear de muleta como descreve o seu estilo de toureio?

DA – Tentei fazer um toureio clássico e com pureza.

FTV – Enquanto novilheiro, existe alguma faena que tenha sido especial?

DA – Uma novilhada no Campo Pequeno, com um novilho de Pontes Dias e outra em Vila Franca com um novilho de Luís Rocha em que sai em ombros, foram as atuações mais importantes.

FTV – O que o fez trocar o ouro pela prata?

DA – Na altura tive muita dificuldade para fazer tentaderos e para me preparar. Apareceram as corridas com responsabilidade e não pude dar a resposta que as pessoas esperavam e eu desejava. Desanimei… Um dia nas ruas de Vila Franca, encontrei o Maestro Victor Mendes, que me convidou para treinar com ele e fazer-me subalterno. A partir daí, encontrei aquilo que pretendia, tourear e viver para o toiro, com entrega e ao lado de uma grande figura do toureio.

FTV – Como foi o seu percurso como bandarilheiro?

DA – Tirei a prova de praticante em Albufeira, em junho de 1994 e a alternativa em setembro do mesmo ano, penso que fui dos que menos tempo teve como praticante. Tive o convite do maestro Victor Mendes para tourear com ele na Feira de outubro em Vila Franca. A minha alternativa foi em setembro na Nazaré, dada pelo meu tio Dário Venâncio, com toiros de Pedro Santos Lima. Parei o toiro do cavaleiro Rui Salvador e bandarilhei os toiros dos matadores Rui Bento e Eduardo Oliveira. No ano seguinte coloquei-me com o maestro António Telles, com quem estive 7 anos. Depois estive 3 anos com Paulo Caetano e João Moura Caetano. Finalmente estive 13 anos com Luís Rouxinol e o seu filho Luís Rouxinol Jr.

FTV – Qual foi o melhor conselho que lhe deram a nível profissional e pessoal?

DA – Ao longo de tantos anos conheci muitas figuras do toureio e o que todas me diziam, era para viver as 24 horas do dia para o toiro. Viver para o toiro, preparar-se todos os dias, cuidar-se fisicamente e estar bem psicologicamente.

FTV – Sentia-se mais á vontade com o capote ou com as bandarilhas?

DA – Sem duvida que com o capote. Sempre tive a obsessão pelo temple e pelo lance suave e largo. Com as bandarilhas era mais irregular.

FTV – Quais são as diferenças entre sair na quadrilha de um cavaleiro e de um matador?

DA – São coisas diferentes, no toureio a pé tens que ser mais perfeito na execução dos lances, para que o matador veja o toiro e não prejudique a sua atuação. Tens os toiros em pontas e o tercio de bandarilhas, onde se expõe muito mais do que sair na quadrilha de um cavaleiro. Por outro lado, ao sair com um cavaleiro, tens talvez mais esforço físico. Tens que intervir mais, com pisos por vezes impossíveis ou quando os toiros se põem difíceis para pegar.

FTV – Acha que conquistou o seu espaço? Quando?

DA – Sempre me dei ao respeito tanto dentro como fora da praça. Por isso acho que conquistei o respeito dos profissionais e dos aficionados e isso faz com que me sinta realizado. Tive uma educação taurina, sempre correta e com admiração por todos.

FTV – Saiu várias temporadas com a família Rouxinol, conte-nos uma história engraçada que tenha vivido com eles?

Na quadrilha da família Rouxinol vive-se um ambiente de grande amizade e de boa disposição, somos isso mesmo uma família. São inúmeras as histórias, porque vamos sempre a brincar uns com os outros. Quando fui convidado pelo Sr. Mário Freire para ir para a quadrilha do Luís, explodi de contentamento num espaço comercial cheio de gente. Quando dei por mim estava toda gente a olhar e a perguntar-me se estava bem. Estou muito grato aos Rouxinóis por todos estes anos de grande amizade e de bons momentos passados.

FTV – Que mais valoriza nas outras pessoas, as palavras ou os gestos?

DA – Valorizo a sinceridade, a humildade e a amizade verdadeira.

FTV – Porque decidiu terminar a sua carreira?

DA – Tudo tem um princípio, um meio e um final. Depois de ter tido alguns problemas de saúde, fiquei com algumas mazelas físicas. Acho que é o momento de sair e de deixar uma boa imagem. Foram muitos anos, muitas corridas, dei sempre o meu melhor e por isso quero sair bem desta profissão.

FTV – Sabemos que tem um sucessor nas arenas. O que pode adiantar acerca do seu filho?

O meu filho Tomás é um menino que nasceu com umas condições naturais para o toureio, no entanto, ainda é muito cedo para poder antever o que poderá vir a ser.

FTV – Dia 31 de março diz adeus ás arenas na “sua” Palha Blanco, de que forma convencia um aficionado para ir a este festival?

DA – Dia 31 está reunido um cartel muito atrativo com grandes figuras do toureio tanto a cavalo como a pé. Reúne maestria com juventude e irreverencia, e em que atuam toureiros que marcaram a minha carreira. Todos vamos dar o nosso melhor para oferecer uma tarde cheia de emoções.

FTV – Para terminar complete a seguinte frase: Ser toureiro é…

DA – É uma forma de vida, um vicio, uma paixão.

Fotos: Pedro Batalha @ site Naturales