51 anos depois da última corrida realizada só com matadores de toiros portugueses, o Campo Pequeno voltou a organizar um espectáculo com a mesma essência e ficou provado que o toureio a pé em Portugal tem nestes três jovens matadores (e noutros também casos de Nuno Casquinha e Joaquim Ribeiro “Cuqui”) excelentes protagonistas capazes de proporcionarem uma noite de toiros inesquecível.

A ganadaria Calejo Pires (origem Nuñez del Cuvillo) fazia a sua estreia com um curro completo e não defraudou, muito pelo contrario. Foram 6 toiros de excelente apresentação, com peso, com trapio e acima de tudo com seriedade a pedir contas aos toureiros.

António João Ferreira esteve muito bem nos dois toiros que lidou, realizando um toureio que primou pela quietude, a mesma que fez sofrer uma fortíssima voltareta no decorrer da faena ao 4º toiro da noite. O toureiro de Santarém partiu a bacia e vai ter de ser operado em breve, mas mesmo com este grave percalço António João Ferreira terminou a faena com uns naturais em camara lenta indescritíveis. Respeito e “verguenza torera”! Rápidas melhoras matador.

Manuel Dias Gomes esteve inspirado a noite toda, mesmo tendo em conta as raríssimas oportunidades que tem de tourear em publico. Quem o viu ontem em Lisboa, parecia que o Manel toureia todos os dias nas principais feiras de Espanha. Muita técnica, muita calma, muito temple, passes com imensa profundidade e acima de tudo muito sentimento. Foram duas faenas cheias de salero e de toreria. Parabéns Manel!

Entrevistei o João Silva “Juanito”, para a TVI num bolsin realizado no Campo Pequeno no inicio de 2010, passada quase uma década o jovem de Monforte é o toureiro a pé nacional que mais toureia em Espanha (onde tomou recentemente alternativa em Badajoz). Ele cresceu como toureiro e eu como jornalista, é incrível como o tempo passa tão depressa e as coisas mudam tão rapidamente… Nesta noite quente de final de verão “Juanito” não deixou os créditos por mãos alheias e mostrou todo o seu potencial realizando duas grandes faenas. Tanto de capote como de muleta esteve impecável.

Quem também esteve em bom plano foram os bandarilheiros portugueses que brilharam tanto de capote como com as bandarilhas. Cláudio Miguel, Tiago Santos, Pedro Noronha, os irmãos João e Joaquim Oliveira e João Ferreira estiveram soberbos!

Qualidade não falta no toureio a pé em Portugal, só falta mesmo que as empresas, em especial as que organizam corridas em localidades onde esta vertente do toureio está enraizada, apostem nestes jovens. Senhores empresários da Ilha Terceira, de Abiul, da Moita estão à espera de quê para contratar estes jovens? Apostam em matadores estrangeiros que só vem a Portugal buscar os muitos euros do seu cachet e ainda exigem toiros pequenos e “muito seleccionados”.

As outras empresas que não costumam montar corridas mistas ou a pé bem podiam pensar em variar o formato da corrida e apostar nestes toureiros. Ás vezes e cansativo e monótono montar sempre corridas à portuguesa, há que diversificar e criar novos aficionados.

Só perdeu quem ficou em casa, porque esta foi sem dúvida alguma uma das melhores corridas da temporada!

Não houve tempos mortos, houve seriedade, emoção, valentia, arte e muita paixão pelo toureio.

Deixo aqui um repto às empresas e ao matador de toiros “Pedrito de Portugal” que este ano comemora 25 anos de alternativa e não participa numa única corrida. Para quando montar uma corrida de toiros com os seis matadores portugueses no activo? “Pedrito de Portugal”, António João Ferreira, Manuel Dias Gomes, Nuno Casquinha, João Ribeiro “Cuqui” e João Silva “Juanito”, digam lá se não seria uma excelente cartel?

Haja coragem e aficion!

António João Ferreira
Manuel Dias Gomes
Juanito
A seriedade dos toiros de Calejo Pires