A Tauromaquia é uma arte performativa, inserida no mundo do espetáculo tal como a música, o teatro, a dança, a pintura ou o cinema.

O objetivo de qualquer arte é expressar sentimentos, seja através de notas musicais (música), da interpretação de uma narrativa ao vivo (teatro), do movimento do corpo para se expressar ao som de música (dança), da técnica de aplicar um pigmento pastoso ou liquido a uma superfície (pintura), da reprodução de histórias em movimento (cinema) ou a capacidade de transformar a investida de um toiro num momento de estética e plástica (tauromaquia).

Em nenhuma destas artes o termo tragédia está inserido. Pode acontecer, mas se controlarmos ao máximo as variáveis evitamos ao máximo que isso aconteça, mantendo-se sempre presente a capacidade de expressar sentimentos e a emoção que deriva da mesma.

Todas as artes performativas evoluíram substancialmente nas últimas décadas. Na música houve uma evolução enorme no que diz respeito a novos géneros musicais, derivados da descoberta de novos instrumentos. No cinema a evolução é uma constante de dia para dia, já lá vai o tempo dos filmes mudos a preto e branco. Qualquer arte está em constante mutação e a tauromaquia não pode ser a exceção.

Os cavalos e os toiros de lide evoluíram bastante nos últimos anos, cada vez mais procura-se melhorar a performance dos cavalos e a investida dos toiros de forma, não a colaborar com os toureiros, mas antes proporcionar uma experiência mais enriquecedora de sentimentos e emoções a quem assiste ao espetáculo. Se não existir publico, o espetáculo termina.

A evolução na tauromaquia depende da sensibilidade e da inteligência de todos os intervenientes. Vejamos, as figuras do toureio, aqueles que todos querem ver tourear, eles toureiam praticamente e com raras exceções os mesmos encastes.

Não é por uma questão de facilidade, porque um El Juli ou um Roca Rey têm capacidade técnica para tourear qualquer encaste. Na maioria das atuações, eles toureiam os mesmos encastes, porque são aqueles que dão garantias de expressar os sentimentos e as emoções que a grande maioria do publico e dos aficionados (atenção não escrevi todos os públicos, nem todos os aficionados…) querem ver. A maioria das pessoas quer ver um toiro bravo, não um toiro agressivo. Bravura e agressividade são conceitos opostos. Na arte há lugar para a bravura, mas não há lugar para a agressividade, um elemento que afasta públicos, embora faça parte da nossa sociedade é algo visto de forma pejorativa.

A Tauromaquia como membro do clube das artes é global e transversal. Na Festa dos Toiros não há qualquer tipo de descriminação de intervenientes e públicos. Aqui todos são aceites independentemente da sua raça, da sua religião, do seu estatuto social, da sua visão política, do seu clube de futebol etc… A Tauromaquia é um espetáculo que não fecha as portas a ninguém. Todos são bem-vindos desde que venham por bem. Esta é a maior virtude da nossa Festa, a sua grandeza social.

Num momento em que a oferta cultural e a facilidade de transporte são cada vez mais acessíveis, há que estimar o publico que gosta da Festa Brava com muita sensibilidade e lucidez.

No século XIX a oferta cultural era escassa. A maioria dos portugueses não tinha possibilidade de viajar, os meios de comunicação eram reduzidos e a Internet era uma utopia dos livros de qualquer escritor modernista.

Na atualidade tudo mudou. A evolução faz parte do dia a dia da nossa sociedade seja nas Artes, na Saúde, na Ciência, no Ensino, nos Transportes, na Justiça, no Desporto, na Política em todas as áreas. Tudo evoluiu, é fácil viajar, é fácil comunicar, a maioria das pessoas tem acesso à saúde e ao ensino. Salvo raras exceções na Europa e mais concretamente em Portugal, a qualidade de vida é muito nos dias de hoje é muito melhor do que era antigamente.

O pensamento é cada vez mais liberal. É permitido quase tudo, em especial nas causas sociais, por exemplo: o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo, são uma realidade na nossa sociedade e são na minha opinião sinónimo de avanço social. Em breve a despenalização das drogas leves e a liberalização do comércio das mesmas, assim como a eutanásia serão realidades sociais integrantes na democracia nacional. Tudo pode existir desde que haja regras, que têm como objetivo melhorar a qualidade de vida das populações e evitar que haja tragédias.

O Mundo, a Europa e Portugal estão cada vez mais liberais é uma tendência impossível de negar. A proibição é algo que cada vez faz menos sentido na nossa sociedade, ao contrário da palavra regulamentação ou fiscalização. Tudo pode existir, desde que haja limites e bom senso.

Por exemplo, um dos desportos que mais aceitação teve nos últimos anos na nossa sociedade foi o MMA (Mix Marcial Arts), para quem não conhece é uma mistura de diversos desportos de combate e artes marciais que dois atletas praticam num ringue específico, com a presença de um árbitro que permite emoção, permite adrenalina e até permite agressividade, mas, ai está o mas… assegura a vida dos atletas em ringue. A presença do árbitro é fundamental de maneira a evitar que haja tragédias nesta modalidade desportiva. Pode acontecer, como na tauromaquia também pode, mas devemos ao máximo evitar que as tragédias aconteçam.

As lutas de gladiadores continuam a existir, mas adaptaram-se às exigências do século XXI. Não se luta até à morte, nem são permitidas todas as técnicas de forma a evitar a tragédia, mas a emoção está presente mais do que nunca.

Seja num desporto ou numa arte, ou em qualquer área da nossa sociedade é crucial que haja regras. Os limites não são vistos como forma de proibição, mas sim como forma de melhorar qualquer atividade e acima de tudo como forma de preservar a vida.

Chegamos à parte mais importante da nossa existência, a VIDA. É certo que nunca podemos controlar todas as variáveis, mas aquelas que podemos, devemos exercer esse controlo de forma a melhorar qualquer experiência que faça parte da nossa vida.

Em relação ao jornalismo sensacionalista que tem vindo a público nos últimos tempos no meio taurino, é algo que existe há muito tempo na comunicação social generalista. O sensacionalismo na imprensa existe um pouco por todo o Mundo, um dos órgãos de comunicação social mais conhecidos deste género, é o jornal britânico “The Sun”, por cá temos o “Correio da Manhã” e na nossa tauromaquia temos dois ou três exemplos desta forma jornalística presentes na Internet. Aceito e respeito a sua existência, tendo em conta que vivemos em democracia e numa sociedade mais liberal, onde a palavra proibição só faz parte da ideologia de alguns partidos e pessoas mais radicais. No entanto, não me revejo minimamente nesta forma de fazer informação.

Compreendo que para muitos seja um modo de obterem mais visualizações e leitores em busca de publicidade para os seus órgãos de comunicação. A publicidade, é algo cada vez mais difícil de obter no meio taurino, porque as grandes marcas multinacionais e nacionais com capacidade de investimento avultado preferem investir noutras áreas culturais e desportivas.

Ora, os responsáveis pela Festa Brava têm de perceber com rapidez e pôr em prática adaptação da arte e do espetáculo tauromáquico ao século XXI. Só desta forma vão conseguir gerar novamente o interesse de grandes investidores e de novos públicos. Assim a Tauromaquia será novamente um espetáculo aglutinador de públicos e irá ganhar cada vez mais força e vitalidade na sociedade do século XXI. Em vez de sobreviver com dificuldade aos ataques que é sujeita diariamente. Antigamente esses ataques tinham pouca expressão, mas atualmente esses ataques têm cada vez mais força.

Haja esperança, haja afición, haja inteligência, haja sensibilidade e acima de tudo haja lucidez.

Viva a cultura e viva a Tauromaquia!

“O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar de inteligência sobre nós próprios”, Marguerite Yourcenar

Diogo Marcelino,

Lisboa, julho 2019

foto: Julian Lopez