Estamos em pleno defeso taurino, é altura para fazer análises e reflexões sobre a temporada que recentemente terminou. Durante este período vão ser publicados no Faenas TV alguns artigos, que abordam áreas da tauromaquia portuguesa que consideramos ser do interesse da grande maioria dos aficionados. Vamos começar pela imprensa taurina, uma área fundamental que temporada após temporada dá a conhecer diariamente a todos os portugueses, os acontecimentos que marcam a tauromaquia portuguesa, seja através de texto, fotografia ou vídeo.

Nos últimos anos a imprensa sofreu uma grande transformação, através do surgimento da internet, as tiragens dos jornais (e das revistas) são cada vez menores, e as visualizações dos sites (e blogs) são cada vez maiores. Esta nova vertente informativa tem ainda duas grandes vantagens, a primeira é que pode ser atualizada a qualquer instante (não é preciso esperar uma semana ou um mês para ter acesso ao conteúdo informativo), e a segunda vantagem é o reduzido suporte financeiro necessário para criar um site (ou blog). A par disso, a consulta por parte dos leitores (na grande maioria das ocasiões) é gratuita. Se por um lado é bom, porque permite que surjam novos valores na imprensa taurina, por outro lado é mau, porque nem todos os que surgem têm os conhecimentos e a qualidade que deveriam possuir.

Em Portugal, existem dezenas de espaços informativos dedicados à temática taurina, e todos eles merecem o nosso respeito e consideração. Neste artigo, optamos por fazer uma seleção daqueles que consideramos ser os órgãos de comunicação social, de maior relevância no panorama taurino nacional em 2017.

Farpas Blogue – Miguel Alvarenga é sem dúvida alguma a grande referência da comunicação social taurina em Portugal. É um homem inteligente e perspicaz, e rapidamente percebeu que o “papel”, tinha os dias contados e custos demasiado elevados. Encerrou o “Jornal Farpas” e criou o “Farpas Blogue”. Em boa hora o fez, e rapidamente tornou-se o líder incontestável da informação taurina na internet, usando para tal todo o seu conhecimento jornalístico adquirido ao longo de anos, em vários órgãos de comunicação social nos quais trabalhou.

Ao contrário de outros sites e blogs, o Farpas não tem custo algum na sua conceção e manutenção. A par disso, a imagem deste blog não é propriamente atrativa, podia e devia modernizar-se. Mas acham que os aficionados estão preocupados com isso?

Alvarenga é acusado por muitos de ser sensacionalista, “bombista”, pouco credível, de ter poucos conhecimentos técnicos, e de ser demasiado polémico. A verdade, é que a grande maioria dos aficionados visitam diariamente o seu blog, e ninguém fica indiferente aquilo que ele escreve. Sendo que a grande maioria adora aparecer na galeria fotográfica dos “famosos”.

A chave do sucesso, é só uma, Miguel Alvarenga é jornalista da cabeça aos pés! Ele não é crítico taurino, ele não é colaborador jornalístico. Ele é Jornalista. Tanto podia escrever de toiros, como de outra área qualquer. Tanto podia estar no “Farpas Blogue”, como noutro qualquer órgão de comunicação nacional de cariz generalista, não tenho a menor dúvida disso. Alvarenga tem um estilo de escrita próprio, uma linguagem própria que sai de forma natural. Tem ousadia, tem irreverência e tem um espírito boémio. Tem jornalismo no corpo e na alma, e é isso que cativa os milhares de aficionados e interessados na tauromaquia, a visitarem diariamente o “Farpas Blogue”.

Revista “Novo Burladero – Num tempo em que abundam os órgãos de comunicação na internet, a referência para os aficionados mais puristas e conservadores, é a revista de João Queiroz. Uma publicação que é uma verdadeira enciclopédia para aficionados e que tem escrito grande parte da história da tauromaquia portuguesa nos últimos 39 anos e mais de 344 revistas publicadas. Tem mérito, tem muito mérito mesmo!

Os custos de manter uma publicação nas bancadas, são cada vez maiores e o número de aficionados disposto a pagar 5 euros mensais, por uma publicação taurina, deve ser cada vez menor…

Há quem diga que João Queiroz é “um velho do Restelo”, e que só sabe criticar. Discordo totalmente dessa opinião. Para mim, João Queiroz é a maior referência dos críticos taurinos nacionais (atenção, não disse Jornalistas, escrevi Críticos, são coisas diferentes), diz as verdades que muitos pensam, mas poucos têm coragem para escrever e é um dos maiores defensores do toureio a pé em Portugal. As diversas edições da “Orelha de Ouro” e, mais recentemente os “Ciclos de Novilhadas das Escolas de Toureio”, são festejos criados por João Queiroz (em parceria com outros agentes da Festa Brava), que possibilitam a vários jovens a oportunidade de tourear ou pegar em público, em arenas de prestígio.

A “NB” como é carinhosamente conhecida entre os aficionados, publica crónicas muito credíveis, entrevistas interessantes e bonitas reportagens sobre a cabana brava portuguesa. Tem um leque de colaboradores que primam por ter vários conhecimentos taurinos e por utilizarem corretamente a língua portuguesa.

Peca, por não ter nenhum jornalista na sua equipa e como tal, nos seus artigos falta a ousadia e a irreverência que esta inerente ao jornalismo. Com isso, iria certamente chegar a mais aficionados e até mesmo a uma grande “franja” de público que não é aficionado, mas que tem interesse pelo “mundo das touradas”.

A par disso, esta verdadeira “bíblia dos aficionados”, tem uma certa aversão à inovação, é demasiado conservadora em alguns aspetos, e quem não inova, não evolui e quem não evolui, acaba gradualmente por desaparecer…

Nota: Foi através desta publicação que durante a minha infância aprendi a ler, e foi através da “NB” que adquiri muitos dos conhecimentos que possuo sobre o fascinante mundo dos toiros.

Jornal “Olé – Um esforço enorme levado a cabo por Luís Miguel Pombeiro para manter de pé o único jornal taurino português, disponível nas bancadas. Até quando é que o antigo aluno de Mestre Batista vai conseguir manter o “Olé”, numa altura em que a publicidade é cada vez mais escassa? Esperamos que o “Olé” continue por cá por muitos e bons anos. Luís Miguel Pombeiro é um homem que sabe escrever sobre toiros, que tem uma afición sem limites e isso é bem visível nas suas facetas, que vão além de comunicador.

Naturales-Tauromaquia – Um excelente site sobre tauromaquia. Credível, imparcial e honesto. Prima por publicar crónicas das corridas de toiros, onde a verdade é o elemento principal do texto.

A direção deste site está a cargo de Patrícia Sardinha, uma jovem crítica que tem uma vasta cultura taurina e um grande domínio da língua portuguesa. O painel de colaboradores é composto por bons críticos, Vítor Besugo, Rui Loução e Pedro Guerreiro, e por dois dos melhores repórteres fotográficos da atualidade no panorama taurino português, o Pedro Batalha e o Florindo Piteira.

Falar de Toiros– É o blog de Catarina Bexiga, que para mim é somente a pessoa que escreve melhor de toiros em Portugal. É discípula de João Queiroz, exercendo na revista “Novo Burladero” as funções de chefe de redação.

Durante muitos anos fez magazines radiofónicos vocacionados para a temática taurina e de há uns tempos para cá arriscou (e bem) na internet, através do blog e da página de Facebook com o nome “Falar de Toiros”. As suas crónicas, são simples e incisivas. Avessa a protagonismos, Catarina Bexiga é uma verdadeira “enciclopédia taurina” em pessoa.

Nota: Se eu tivesse um programa de televisão, a Catarina seria das primeiras pessoas que eu iria convidar para fazer parte da minha equipa.

Barreira de Sombra – António Lúcio, é um critico taurino com mais de 30 anos de carreira, já passou pela rádio, pela televisão e pelos jornais. Fala com conhecimento de causa, e na atualidade é responsável pelo blog “Barreira de Sombra”, um espaço de visita obrigatória para todos os aficionados.

Sortes de Gaiola – João Cortesão é sinónimo de irreverência e ao mesmo tempo de uma enorme cultura taurina e equestre. É sem dúvida alguma um grande apaixonado pela Festa Brava, sendo ao mesmo tempo senhor de uma escrita que se ama, ou se odeia.

Toureio.pt – O Hugo Calado foi um dos pioneiros da informação taurina na internet. Este jovem alentejano, natural de Vila Viçosa, tem feito bastante na divulgação da tauromaquia. O toureio.pt é um site fidedigno com notícias diárias, crónicas pertinentes e boas fotografias.

O trabalho levado a cabo por Hugo Calado na Rádio Campanário é de realçar, sendo esta uma das poucas estações radiofónicas que apoia na atualidade a tauromaquia. A estação calipolense, contribui de duas formas para dinamizar a Festa Brava: realiza um magazine semanal da responsabilidade do Hugo Calado e organiza um festival taurino de renome no início de cada temporada, que por mérito próprio já faz parte do calendário taurino nacional.

Tauronews” – De todos os órgãos de comunicação que elegemos, para fazerem parte deste artigo, este é o mais recente. Para muitos aficionados, o site que foi criado no início desta temporada é uma evolução natural da “Tauromania”, um espaço cibernético que existiu durante vários anos, e tal como a Tauronews, a sua redação era composta maioritariamente, por antigos forcados.

A Tauronews, é um site que tem uma imagem apelativa, é de fácil consulta, tem notícias diárias, crónicas pertinentes, boas fotografias e artigos de opinião com bastante interesse. Além disso, a sua equipa gosta de inovar. Prova disso, foi a criação de uma aplicação disponível para iphone e android. Até que ponto isso será útil? Não sei… mas para as gerações mais novas, acho que pode ser uma mais-valia.

As “más línguas” dizem que na origem da Tauronews está a “Passarinha Rapada”, uma página do Facebook onde o humor e a tauromaquia andavam de mãos dadas. Numa epoca em que a Tauromaquia às vezes cheira a mofo… A “Passarinha Rapada” tinha um sentido de humor muito pertinente. Os seus autores conseguiam dizer verdades com muita graça e sem maldade. Coincidência ou não… com o nascimento do novo site, a página da rede social desapareceu e renasceu numa coluna de opinião, do site liderado por Francisco Mendonça Mira. Será que a fundação da Tauronews e o desaparecimento da “Passarinha Rapada” estão interligados? Essa, é a resposta para um milhão de dólares.

O certo é que apesar da sua juventude, tenho a certeza que a Tauronews veio para ficar. É um site interessante e com bastante qualidade.

Campo Pequeno TV” – É o primeiro, e até ao momento o único canal de televisão nacional dedicado em exclusividade à Festa Brava. A responsabilidade é de José Cáceres, que produz e apresenta os conteúdos audiovisuais. Tem um custo mensal de 7,50€ e está disponível nas plataformas MEO e NOS.

O canal apresenta vários conteúdos (resumos das corridas do Campo Pequeno, entrevistas, lides e pegas comentadas, e esporadicamente um ou outro documentário sobre o campo bravo), sendo a sua maioria dedicados à praça de toiros da capital.

A qualidade deste canal não pode ser colocada em dúvida, só que a nível de conteúdos está muito limitado, porque a tauromaquia em Portugal, não se resume somente a Lisboa.

Canal Toros – É o único órgão de comunicação social estrangeiro que surge nesta lista e isso deve-se ao fato de ter um elevado numero de subscritores portugueses. O canal de televisão espanhol, dedica-se única e exclusivamente à tauromaquia, estando disponível o ano inteiro na MEO e na NOS, por apenas 10 euros mensais. Transmite na integra as principais feiras taurinas de Espanha, França e México. Além disso, disponibiliza diversos conteúdos, realizados com uma qualidade invulgar. O principal aspeto negativo deste canal, é o fato de raramente inserir conteúdos que envolvam a tauromaquia portuguesa.

Televisões generalistas – A tauromaquia praticamente desapareceu da televisão portuguesa em sinal aberto. A RTP transmite duas corridas por ano e a transmissão é sempre mais do mesmo. José Cáceres e o Dr. Vasco Lucas são os comentadores de serviço. Não ponho em causa os seus conhecimentos, tanto o ex-forcado do Montijo, como o veterano médico veterinário são dois profundos conhecedores do toiro e do cavalo de toureio, mas já estava na hora de variar um bocadinho… Os repórteres nem jornalistas são (ao contrário do que se passa na TVI) e o realizador Manuel Rosa Pires já estava reformado mas volta ao ativo somente para realizar as corridas de toiros da RTP. Será que não há malta nova para exercer estas funções?

A TVI voltou este ano a transmitir uma corrida de toiros (o 125º aniversário do Campo Pequeno), depois de vários anos de interregno. O jornalista José Manuel Santos é o narrador e o ganadeiro Joaquim Grave é o comentador. Vamos ver se veio para ficar, ou se é “sol de pouca dura”…

Repórteres fotográficos – São uma peça essencial da comunicação social taurina. Sem eles não havia imagens fixas que ilustrassem as crónicas.

Durante muitas temporadas a referência foi Emílio de Jesus, que este ano, por motivos de saúde esteve afastado das arenas. Emílio, fez com Miguel Alvarenga uma dupla imparável. Um fotojornalista em todo o seu esplendor, com uma capacidade invulgar para captar o momento mais importante da corrida.

Ricardo Relvas, antigo bandarilheiro que há muito trocou o capote pela câmera fotográfica publicando as suas reportagens no Redondel Taurino, merece toda a admiração, pois foi das primeiras pessoas a acreditar no Faenas TV e foi dele que recebi muitos ensinamentos úteis tanto na tauromaquia, como na vida jornalística. A par de Emílio de Jesus, também o antigo toureiro vive um momento delicado no que há saúde diz respeito. A eles desejamos rápidas melhoras!

António Cecílio, Duarte Chaparreiro, Luís Azevedo e Henrique Carvalho Dias são os veteranos repórteres fotográficos que fazem a cobertura anualmente de dezenas de corridas de toiros. Transitaram do analógico para o digital, mas a paixão pela fotografia, essa é a mesma de sempre.

Francisco Romeiras é uma figura incontornável da fotografia taurina nacional e não só. Colaborador de várias publicações nacionais, que vão do desporto automóvel às viagens. Nunca escondeu a sua afición e publicou diversos livros dedicados à temática taurina, onde a qualidade é a palavra de ordem.

A nova geração está bem servida, com nomes como Frederico Henriques, Pedro Batalha, Florindo Piteira, Maria João Mil-Homens, João Silva, Miguel Calçada Sousa, entre muitos outros. Percorrem Portugal de lés a lés, para captar “aquele ferro” ou “aquela pega”. A eles o nosso obrigado, pois sabemos bem o esforço que fazem.

Faenas TV – O projeto que surgiu em 2010, na vertente radiofónica na Ultra FM, e em 2011 “ganhou asas” e aventurou-se no audiovisual. Em 2013 deixou em definitivo as ondas hertzianas e o Faenas radicou-se na internet e no MEO Kanal.

A ideia inicial, era fazer somente conteúdos em vídeo, sendo um canal televisivo taurino online, de acesso grátis a todos os aficionados. Mas para que isso fosse possível, era necessário haver publicidade. E foi nessa altura que descobrirmos a existência de um dos problemas mais graves na tauromaquia nacional: o fato da maioria das grandes (e médias) empresas nacionais e multinacionais, não estão interessadas em estar associadas à tauromaquia. Para estas empresas, as visualizações não contam para nada, o que importa: “é não ferir suscetibilidades”… Para nós, que somos aficionados, a tauromaquia não fere suscetibilidade nenhuma, mas para os possíveis patrocinadores parece que sim… Desta forma, resta apenas o patrocínio dos agentes da Festa Brava e a grande maioria deles, não tem verbas para fazer um trabalho no formato audiovisual (com a qualidade que consideramos ser a mínima exigível), e como vocês devem calcular, esta vertente informativa tem custos ligeiramente superiores, à realização de um trabalho fotográfico ou à conceção da publicidade num site.

Entre 2013 e 2016, fizemos diversas reportagens e percorremos o país de norte a sul, fruto de uma afición sem limites e de muita “carolice”, mas o tempo passa e os custos de produção são cada vez maiores (operadores de câmera, editores imagem, material técnico etc, etc). Esta temporada apostamos mais na vertente “texto / foto”, do que no vídeo. Temos pena, mas a realidade atual não permite grandes aventuras, e baixar a qualidade ou pedir uma subscrição (como faz por exemplo, o Campo Pequeno TV), são aspetos que para nós estão completamente fora de questão!

Conclusões da imprensa taurina portuguesa: Em Portugal só existe informação taurina devido à afición de diversas pessoas (jornalistas, críticos e fotógrafos) que amam a Festa Brava e que na grande maioria dos casos, suportam do seu próprio bolso todos os custos inerentes à produção de informação, num tempo em que a publicidade nesta área é praticamente inexistente.

Um espetáculo não vive sem a presença da comunicação social e nenhum órgão de informação taurina em Portugal, tem os recursos financeiros que deveria possuir. Num mercado conservador como é a tauromaquia, ninguém pode exigir mais, do que aquilo que se faz na atualidade. Uma entrada (ou uma senha de trincheira), não é sinónimo do pagamento de um trabalho. Uma entrada, é o mínimo dos mínimos, para assegurar um trabalho informativo com qualidade e rigor.

O ideal seria a existência de um único órgão de comunicação social, que juntasse os melhores jornalistas, críticos e fotógrafos da imprensa taurina nacional. Mas como diria Oscar Wilde: “progress is the realisation of utopias”.