António João Ferreira e Nuno Casquinha estiveram em grande nível na segunda corrida de toiros mista da temporada 2018, no Campo Pequeno. Cada um ao seu estilo, têm valor para dar e vender, é uma pena que os empresários não apostem mais nestes jovens (e em Manuel Dias Gomes também), nunca houve um empresário nas ultimas temporadas que tivesse a ousadia de montar um cartel só com estes três jovens matadores  português, simplesmente porque há falta de afición… Nos últimos anos as corridas apeadas desapareceram e as mistas que se realizam anualmente em Portugal, contam-se pelos dedos das mãos, ao contrário das corridas à portuguesa, que muitas vezes são mais do mesmo. Sempre os mesmos cavaleiros… Mas a culpa não morre solteira, os aficionados onde é que andam? Será que existe uma verdadeira afición em Portugal? Quantos sabem distinguir uma verónica de uma chicuelina, ou um natural de um derechazo? Continuo na minha, o que existe em grande maioria é malta que gosta de ir aos toiros, agora aficionados…

Desta vez ao contrário do que se passou, no passado dia 5 de julho, na noite em que atuaram Morante e Manzanares, viu-se toiros da ganadaria de São Torcato, sérios, bravos, com bonitas córneas e acima de tudo foram toiros que agarraram os aficionados ao longo das faenas, porque na arena lisboeta viu-se aquilo que faz falta às corridas em Portugal e que só os toiros bravos conseguem transmitir: emoção!

A corrida valeu essencialmente pela parte apeada. A grande faena da noite foi da autoria de António João Ferreira ao quinto toiro. Pés assentes na arena, mão baixa e passes por ambas as mãos com muita qualidade. Os olés ecoaram com no Campo Pequeno, diante de um toiro que investia com alegria e respondia aos toques do atual professor da Academia do Campo Pequeno.

Diante do primeiro do seu lote, António João Ferreira tinha mostrado as suas boas maneiras na flanela rubra, em especial com a mão direita.

Nuno Casquinha que tem tido várias campanhas muito meritórias no Peru, teve por diante o lote mais difícil da noite.

O toureiro de Vila Franca, teve de por “a carne no assador”, e brilhou nos três tercios em ambos os toiros. O primeiro toiro do seu lote, não tinha recorrido e ficava muito curto na muleta, mesmo assim Casquinha inventou uma faena. No segundo toiro que lidou, foi colhido e a raça de Casquinha veio ao de cima. Realizando uma faena com uma atitude incrível. Pondo tudo o que tinha da sua parte, diante de um manso que procurava sempre colher o diestro.

Se as faenas de António João Ferreira, tiveram nota artística (os toiros também permitiram isso), as faenas de Nuno Casquinha tiveram nota guerreira. Casquinha foi um lutador que nunca virou a cara à luta! Se me permitem os aficionados mais conservadores, mas Nuno Casquinha (na minha opinião, em épocas distintas e contextos distintos), tem tudo para ser o novo Victor Mendes.

Oxalá, tanto António João Ferreira, como Nuno Casquinha (e volto a frisar Manuel Dias Gomes), tivessem oportunidade para tourear 12 ou 15 corridas em Portugal, e dessa forma as portas do mercado francês e espanhol abrissem a estes grandes matadores de toiros portugueses.

Uma palavra para a quadrilhas. Bons pares a cargo de João Ferreira, Tiago Santos e João Martins que saíram com António João Ferreira. Boa brega de Cláudio Miguel que saiu com Nuno Casquinha e foi coadjuvado por Nuno Gonçalves e Pedro Gonçalves que toureou pela última vez em Lisboa, depois de ter recebido a alternativa no Campo Pequeno há 27 anos.

No que diz respeito à parte equestre, Sónia Matias e Ana Batista abriram praça, lidando um encastado toiro a duo, numa lide sem história.

Por motivos de saúde Sónia Matias, não toureou o toiro a solo que lhe correspondia e Ana Batista teve de tourear dois toiros, nos quais realizou, duas lides muito meritórias (em especial a primeira delas, montando o cavalo Chinelito) onde vimos sortes bem desenhadas, e bons ferros. Tudo feito com muita classe e elegância.

Foi pena, não termos tido oportunidade de ver a raça e a alegria de Sónia Matias (que recolheu à enfermaria e por ordem médica foi impedida de tourear), a quem desde aqui, enviamos votos de rápidas melhoras.

Os rapazes das Caldas da Rainha, estiveram valentes e realizaram boas pegas. O cabo Francisco Mascarenhas, abriu praça e pegou à segunda tentativa, seguiu-se António Cunha numa pega muito rija, a dobrar o lesionado Lourenço Palha. A encerrar a prestação dos forcados caldenses viu-se uma pega de cernelha a cargo de Duarte Palha e José Maria Abreu.

Resumindo e concluindo, foi uma verdadeira noite de Toiros bravos e sérios da ganadaria de São Torcato, onde se viu a arte e o valor de António João Ferreira, e a raça e atitude guerreira nos três tercios de Nuno Casquinha e onde os aficionados provaram adere com maior facilidade à corrida à portuguesa, do que às mistas com matadores portugueses.

Aos que ficaram em casa, só vos digo uma coisa: não sabem a noite de Toiros que perderam!

crónica: Diogo Marcelino

foto: Emilio de Jesus