Sérgio Nunes é um jovem natural de Sintra que sonha vir a ser matador de toiros. Foi na Academia do Campo Pequeno, que deu os primeiros passos e foi lá que o conheci. O Sérgio tem uma aficion sem limites, é valente e tem muita toreria, mas muito mais importante do que isso é o fato de ser um rapaz muito educado e humilde. Este jovem começou por receber os ensinamentos das mãos do Maestro José Luís Gonçalves e do bandarilheiro Américo Manadas, pessoa que Sérgio considera ser “um segundo pai”. O ano passado participou em diversas novilhadas, em algumas das arenas mais importantes de Portugal e durante este Inverno rumou a Espanha, onde ingressou na Escola de Toureio de Madrid. Na próxima quinta-feira regressa ao nosso país para tourear a novilhada desta temporada na arena que o viu nascer para o toureio, o Campo Pequeno pois claro! Vamos então conhecer melhor o Sérgio Nunes!

Faenas TV (FTV) – Olá Sérgio, como é que começou a tua paixão pelo Mundo dos toiros?
Sergio Nunes (SN) – Olá Diogo, o meu interesse pelo mundo dos toiros já vem desde pequeno, de quando acompanhava o meu pai a ir ver corridas. O facto de ele ser um grande aficionado ao toureio apeado, levou a que eu seguisse esse caminho anos mais tarde.

FTV – Como é que tiveste conhecimento da Academia do Campo Pequeno e porquê que escolheste frequentar aquela escola de toureio, em vez de outras, como por exemplo as de Vila Franca de Xira ou da Moita?
SN –  Eu sou de Sintra e a Academia de Toureio do Campo Pequeno era aquela que ficava mais perto de casa e a mais acessível no que diz respeito a transportes. Ao ser formada uma escola de toureio em Lisboa, deu-me a possibilidade de começar a aprender a tourear.

FTV – Que balanço fazes do teu percurso na Academia do Campo Pequeno?
SN – Foram 5 anos de aprendizagem constante. Eu entrei no início da Academia (fui dos primeiros alunos) e a altura nem sabia pegar num capote ou numa muleta. Olhando para tudo o que passei, e para tudo o que aprendi, foi um percurso muito positivo, principalmente por me ensinar a ganhar as coisas a pulso.

FTV – O quê que o Maestro José Luís Gonçalves te ensinou, que nunca vais esquecer?
SN São tantas a recordações que é difícil dizer uma só. Ensinou-me coisas que na altura eu não tinha maturidade para as assimilar, mas que me ficaram na cabeça e hoje em dia consigo pô-las em prática, e isso diz muito sobre a profundidade dos conhecimentos dele. Mas por exemplo, que não esqueço que ele me disse foi: no dia em que tenha medo de um toiro, meter-me sempre de frente e cruzar-me por completo ao piton contrario. E hoje em dia, quando tenho pela frente um animal complicado é um ensinamento que me serve muito.

FTV – E qual a importância do Maestro Rui Bento e do bandarilheiro Américo Manadas na tua formação como toureiro e como pessoa?
SN – Na minha vida profissional houve três pessoas que me marcaram muito no Campo Pequeno. O Maestro José Luís, que me ensinou a tourear e que me fez sacar a raça para ganhar as minhas oportunidades. O Maestro Rui Bento, dada a suas grandes responsabilidades numa empresa como é o Campo Pequeno, nunca pode ser uma pessoa presente na minha formação técnica, mas foi uma pessoa imprescindível na minha formação mental como toureiro e como pessoa. E por último o Bandarilheiro Américo Manadas, sem duvida a pessoa mais importante para mim. Foi a pessoa que apostou em mim desde o primeiro dia, que me defendia e me apoiava. Do pouco que sou hoje, devo tudo a ele. Foi o Manadas que me formou como toureiro e como pessoa. É como um segundo pai para mim e por isso agradeço-lhe muito.

FTV – Lembraste da primeira vez que te vestiste de luces?
SN – Sim, claro foi um sonho tornado realidade. Foi no Tentadero do Cabo, em Vila Franca, e foi a ultima vez que o Maestro José Luís me acompanhou numa novilhada. A magia que ele transmitiu naquele dia, foi muito importante para mim.

FTV – E como foi o teu debute em Espanha?
SN – O meu debute em Espanha foi pouco depois do debute de luces em Portugal. Foi numa bezerrada numa localidade perto de Madrid, em Pedrezuela. A minha atuação foi muito boa, mas o facto de nunca ter entrado a matar a nenhum animal, levou-me a pinchar muitas vezes o bezerro e o resultado final foi só uma ovação.

FTV – O ano passado participaste em várias novilhadas, que balanço fazes dessa oportunidade?
SN – Faço um balanço positivo, no contexto geral para todos os que participamos nessas novilhadas, foi uma oportunidade que nos deram de tourear nas praças mais importantes do país. Mas no meu caso, foi um ano em que apesar de não ter tido sorte com os novilhos que me tocaram, foi uma oportunidade que deixei escapar para dar um toque de atenção ao mundo dos toiros em Portugal. Na memória ficou a tarde em Montemor, aí sim tive sorte e toureei um novilho a prazer, e a noite de Lisboa, por ser o meu debute na praça onde aprendi a tourear e onde eu passava os meus dias a treinar, mas também pela forma como fui disposto a tourear. Essa noite estive a gosto. Senti-me toureiro na plenitude. Sabes Diogo, o Campo Pequeno é diferente de todas as praças, é a arena em que te sentes toureiro de corpo e alma!

FTV – Este ano, iniciaste uma nova etapa na tua carreira. Foste viver para Madrid e frequentas a escola de toureio local. Como está a ser essa experiência de vida?
SN – Sim, foi uma nova etapa em que quase tens que começar do zero. Vim de uma escola em que eu era o aluno mais adiantado, para uma escola em que era mais um a querer tourear, e por isso custou-me muito a adaptação. Mas uma vez superada essa fase inicial, comecei a desfrutar de treinar na escola mais importante do mundo e também de ter o privilegio quer de treinar num sítio histórico com é a “Ventas del Batan”, e também poder treinar na praça mais importante do Mundo, “Las Ventas”.
Hoje em dia estou dedicado a 100% ao toureio, treino 8 horas todos os dias. Treino de manhã na escola, e á tarde com matadores de touros e novilheiros que aparecem pela Casa de Campo. No fundo, estou a viver o meu sonho, viver em toureiro, as saudades de casa não são tantas como poderiam ser se não estivesse a vive-lo. Vivo numa casa muito taurina, em que a dona é costureira de fatos de tourear, havendo outro quarto também alugado a um picador de touros com o seu filho novilheiro.
Já a adaptação cultural foi uma tranquila, o idioma não foi um grande problema para mim, pois já tinha alguma ideia do Castelhano, a comida apesar de ser confecionada de maneira diferente, os produtos são muito idênticos aos portugueses, como tal o custo de vida cá é muito semelhante ao custo de vida em Portugal. Mas como não queria sobrecarregar os meus pais com uma decisão que foi minha, os primeiros meses fui trabalhar nos meus tempos livres para as obras, para conseguir manter-me aqui sem que tenha de sobrecarregar os meus pais, e por isso tenho mantido aqui com o dinheiro que poupei dessa fase.

FTV – E consegues conciliar a estada em Madrid, com a licenciatura em Agronomia no ISA ou os estudos ficaram em “standby”?
SN – A licenciatura em Engenheira Agronomia ficou em “standby” quando me faltava 1 semestre para acabar. Pensei que conseguisse conciliar, mas não foi possível, e optei por seguir o meu sonho enquanto posso, podendo acabar a licenciatura quando tenha oportunidade para a acabar.

FTV – Este ano quantas novilhadas já toureaste?
SN – Até agora não toureie nenhuma novilhada. É uma escola muito competitiva, em que o nível é muito alto, e como foi o ultimo novilheiro sem picadores a entrar para a escola, as primeiras oportunidades estão a ser para os alunos que já levam aqui mais invernos que eu. Mas certamente que também terei a minha oportunidade, como ele até agora tenho tido.

FTV – Como é que te tens preparado para a novilhada de 10 de agosto no Campo Pequeno?
SN – Vai ser a minha primeira atuação este ano, por isso está a ser preparada desde à muito tempo. Estou a viver para o toureio e por isso estou preparado não só para o Campo Pequeno, mas como para tudo o que surja daí em diante. Mas claro, tourear num marco tão importante dá-me uma ilusão ainda maior durante os dias de treino. Com isto digo que estou preparado e que os trabalhos de casa já estão feito desde à muito.

FTV – Até ao momento é o espetáculo mais importante da tua temporada?
SN – Sem dúvida, eu digo sempre digo que a tarde mais importante é sempre a próxima, e neste caso Lisboa ganha uma importância redobrada, quer por ser a praça mais importante de Portugal, como por ser a minha próxima atuação.

FTV – Quando esperas debutar com picadores e quais as principais dificuldades que achas que vais enfrentar nessa fase?
SN – Ainda não há perspetivas para o debute com picadores. Por agora estou concentrado em preparar-me bem para esta última fase sem picadores, e quando surja a oportunidade aproveita-la. Esse é um passo muito grande que tem de ser dado firmemente. Pois em vez de tourear novilhos de dois anos, começamos a tourear novilhadas que são autênticas corridas de toiros, e em que dada a escassez de oportunidades é uma realidade e só os melhores é que toureiam.

FTV – Nos últimos anos, muitos jovens novilheiros portugueses estiveram em bom plano na fase sem picadores, mas depois chegou o debute com os de “castoreño” e praticamente deixaram de tourear… nunca mais se ouviu falar deles. Tens receio que isso aconteça contigo?
SN – A fase de novilheiro com picadores é um crivo muito restrito. Nessa fase só se salvam os que são muito bons, pois a passagem do eral ao utrero é muito seletiva, quer pelo tamanho e pelo comportamento do animal, quer pela competência dos companheiros. E apesar de ainda não estar a pensar nesse passo, estou a preparar-me para ele.

FTV – A tua carreira até ao momento está a correr como tu sonhaste?
SN – Nem de perto, nem de longe. Sou muito exigente comigo mesmo, e por isso é muito difícil alcançar o que proponho. Mas tenho alcançado os meus objetivos, um pouco mais tarde do que sonhei, mas isto é uma “carrera de fondo”.

FTV – Como defines o teu estilo de toureio e quem são os teus ídolos na tauromaquia?
SN – Não sei como definir-me como toureiro, não me consigo encaixar num estilo específico, tal e qual como não tenho nenhum estilo de tourear predileto. Procuro fazer as coisas que sinto com a maior entrega possível, porque afinal que contas é isso que o publico nos exige numa praça. Mas como ídolos tenho os Maestros Julian Lopez “El Juli”, Miguel Angel Perera, Alenjandro Talavante, Sebastian Castella, Morante de la Puebla, José Mari Manzanares, e outros tantos…

FTV – Se tivesses de escolher um cartel, uma praça e uma ganadaria para a tua alternativa quais seriam?
SN –  Na impossibilidade de ser no Campo Pequeno, gostaria que fosse em Olivenza com touros Nuñez del Cuvillo, com o Maestro “Juli” de padrinho e Miguel Angel Perera de testemunha.

FTV – Como vês a tauromaquia em Portugal a médio / longo prazo?
SN – Eu vejo a tauromaquia em Portugal tal e qual com a vejo aqui em Espanha, com muita insegurança. Mas estou convencido que o mundo taurino sairá desta incerteza e sairá mais reforçado, como hoje em dia é mundo taurino francês.

FTV – Somos mais as perguntas que fazemos, ou as respostas que damos?
SN – Penso que somos mais as respostas que damos. O mundo do toiro é um mundo por vezes muito cruel, em que a memória das pessoas é um pouco efémera. E por isso tens que te fazer notar todos os dias. E isso faz-te evoluir quer como pessoa, quer como toureiro

FTV – Onde e como gostarias de estar daqui a 10 anos?
SN – O meu sonho é poder viver do que mais gosto de fazer que é tourear. Não sou de fazer planos a longo prazo, mas certamente que gostava de estar a tourear em todas as principais feiras do mundo taurino.Ao mesmo tempo gostava de contribuir para que o toureio a pé em Portugal tenha a importância que merece ter e que teve em épocas passadas.

Muito obrigado Sérgio, um abraço e toda a sorte do Mundo!

fotos: Frederico Henriques @ Campo Pequeno