Juan José Padilla foi por mérito próprio ao longo de um ano o ídolo incontestável da aficion de Lisboa. Tudo aquilo que fazia na arena era merecedor de enormes ovações e o desfecho era sempre o mesmo: saída em ombros. Na maioria das vezes, esse prémio era exagerado. Padilla esteve sempre em figura em todas as suas actuações no Campo Pequeno, excepto na passada quinta-feira. No primeiro toiro do seu lote ainda deu um “ar da sua graça”, em especial com as bandarilhas a sua especialidade, mas no segundo toiro do seu lote tudo mudou. O matador de Jerez de la Frontera não quis bandarilhar e o público assobiou como há muito não se ouvia no Campo Pequeno… A quadrilha de Padilla esteve fatal, e com a muleta começou bem, mas os sucessivos desarmes da flanela rubra fizeram com que o coro de assobios voltasse a ser bem audível na emblemática sala de espectáculos de Lisboa. Padilla nunca se confiou nem quis ver o toiro. O que se passou na cabeça do toureiro só Deus sabe, mas a verdade é que Padilla passou de amado a odiado em Lisboa, por vontade própria. A raça e a atitude que caracterizam este toureiro (e eu sempre valorizei esses atributos nas reportagens), desta vez ficaram em casa.

Quem aproveitou esta ocasião da melhor maneira, foi Manuel Dias Gomes, jovem matador de toiros lisboeta, com valor e bom corte artístico. O neto de Augusto Gomes Jr. (o segundo matador de toiros português), esteve firme e valente diante do primeiro toiro do seu lote, mas o astado de Manuel Veiga veio a menos na muleta e a determinada altura rachou e busco refugio em tábuas. Deu uma volta à arena sempre agarrado às tábuas, mas Dias Gomes nunca desistiu e realizou a faena possível, onde a atitude e o querer estiveram sempre presentes.

O melhor da noite, estava para vir diante do ultimo toiro da corrida, o único que foi bravo. Dias Gomes esteve muito bem de capote desenhando bonitas verónicas rematadas com uma meia muito artística e com a mãos muito baixas. Manuel iniciou a faena de muleta de joelhos no centro da arena com um espectacular passe cambiado e a partir daqui foram sem duvida alguma os melhores momentos da noite. O toureiro estava confiado e “puxou pelos galões”, bons passes por ambos os pitons, com estética, temple e muita verdade. E assim conquistou o trono do Campo Pequeno.

A sua quadrilha composta por Cláudio Miguel, João Ferreira e João Oliveira esteve sensacional. Bem de capote e impecáveis com as bandarilhas.

No que diz respeito às duas lides equestres a cargo do único cavaleiro que fazia parte do cartel, pouco à para contar. Os dois toiros da ganadaria Vinhas tinham poucas condições de lide. Luís Rouxinol esteve correcto em ambas as lides, dando sempre o seu melhor. Valeu pela atitude do cavaleiro de Pegões, que esta temporada comemora 30 anos de alternativa.

Os forcados de Santarém efectuaram as pegas por intermédio de António Taurino e de Francisco Graciosa ambos à primeira tentativa

Os toiros de Vinhas (lidados a cavalo) e Manuel Veiga (lidados a pé), foram mansos, transmitiram pouco e foram reservados no geral excepção feita para o ultimo da noite toureado por Dias Gomes.

A direcção da corrida esteve a cargo de Manuel Gama, assessorado pelo veterinário Jorge Moreira da Silva e pelo cornetim José Henriques. A casa registou meia casa forte e ao inicio da corrida fez-se um minuto de silêncio em memória do matador de toiros espanhol Dámaso González e do jovem forcado dos Amadores de Cuba, Pedro Primo.

foto: Campo Pequeno