“Deus põe, o Homem dispõe e o Toiro descompõem”, é um ditado antigo mas que se pode aplicar na perfeição para descrever a corrida da passada quinta-feira, em Lisboa. A corrida mista era um dos festejos, que mais expectativa gerava junto da aficion lisboeta, no abono deste ano.

Em praça João Telles Jr, os forcados do Aposento da Chamusca e duas das maiores figuras do toureio a pé em Espanha, Morante de la Puebla e José Mari Manzanares. Ambos tinham estado recentemente em Lisboa (Morante numa “goyesca” em 2016, e Manzanares, o ano passado, num mano-a-mano com Pablo Hermoso de Mendoza), e ambos tinham deixado um grande ambiente, por estas bandas. A expectativa para os ver de novo, a tourear na praça de toiros mais importante do nosso país, era muito elevada.

Por sua vez, a empresa do Campo Pequeno, debateu-se com um grave problema: esta temporada não foi fácil anunciar as maiores figuras do toureio em Espanha, na arena lisboeta. A cavalo, a única certeza é Pablo Hermoso de Mendoza. O regresso de Diego Ventura, para já é ainda uma expetativa e não passa disso mesmo. O rejoneador, diz que a data disponível para vir tourear à capital é 11 de Outubro (corrida de gala à antiga portuguesa, transmitida pela televisão), por sua vez, a empresa alega que dias antes Ventura toureia em Vila Franca de Xira… ou seja, não está fácil o regresso do único rejoneador que ate hoje cortou um rabo em Madrid.

No que diz respeito ao toureio a pé, as coisas ainda estão mais complicadas, porque as figuras do país vizinho, em primeiro lugar não gostam de tourear toiros que não sejam picados, e em segundo lugar, a maioria dos diestros espanhóis, exige honorários que não são compatíveis com a lotação do Campo Pequeno. Fala-se de Juan José Padilla para a segunda metade da temporada e na primeira metade? Morante e Manzanares, foi a solução encontrada que certamente contou com a ajuda do aficionado Pedro Marques, que é muito próximo do toureio de Puebla del Rio.

O problema das figuras do toureio a pé em Lisboa, parecia que estava resolvido. Os aficionados ficaram felizes e foram sonhando com esta corrida.

As lides a cavalo de João Telles, resultaram bem, com bons ferros em ambos os toiros da ganadaria do seu avo (na versão, encaste murube). Pelo Aposento da Chamusca, foram caras João Rui Salgueiro ao primeiro intento e Francisco Andrade à quarta tentativa.

Para as lides a pé a apresentação dos toiros da ganadaria de Paulo Caetano, ficou aquém das expectativas. O ganadeiro não tem culpa nenhuma, porque não foi ele quem escolheu os toiros e a empresa para ir com a corrida por diante, teve de se sujeitar à escolha dos toureiros.

Eu ou muito me engano, ou os toureiros impuseram os toiros (em especial Manzanares…). Animais com escasso trapio, sem cara e… sem bravura! O público aguentou um toiro, aguentou dois, aguentou três, só viu detalhes de ambos os toureiros e no ultimo toiro da noite rebentou! A bronca foi total, as pessoas assobiaram como há muito não se ouvia no Campo Pequeno. A empresa decidiu oferecer o toiro sobrero para ser lidado pelos dois matadores, ambos realizaram bons quites de capote: De muleta Morante decidiu abreviar a faena e Manzanares nem agarrou na flanela rubra, alegando que o toiro já não tinha condições de lide.

O público, em vez de sair da praça a tourear, saiu a assobiar. No entanto, estou certo que se os toiros investissem e proporcionassem boas condições de lide aos matadores espanhóis, ninguém falava da escassa apresentação dos toiros, e esta seria certamente “a corrida da temporada 2018” em Lisboa.

foto: Campo Pequeno