Só se organizam espetáculos taurinos, porque existe público para tal e dentro do público existe um subgénero designado de “aficionados”. Supostamente, são a parte do público que possui maior conhecimento sobre aquilo que se passa no mundo do toiro. Infelizmente na atualidade, este subgénero está gradualmente a desaparecer e a falta de cultura taurina em Portugal aumenta temporada após temporada.

Isso ficou bem patente ao longo de 2017, nomeadamente, em três corridas de toiros que incluíam as máximas figuras do toureio mundial. Os promotores de espetáculos taurinos, vulgo “empresas”, estão de parabéns. Durante muito tempo foram criticados porque só apostavam na corrida à portuguesa e esqueciam-se do toureio a pé. Quando a vertente apeada surgia nos cartéis, raramente incluía as principais figurais de Espanha. Pois bem, esta temporada foi exatamente o contrário, e três dos principais promotores taurinos nacionais, apostaram forte no toureio a pé, inserindo nos cartéis alguns dos melhores matadores de toiros do mundo, em conjunto com os dois melhores rejonadores do momento e as praças não esgotaram.

A 27 de Maio, a empresa de Rafael Vilhais deu o tiro de partida na Moita: mano a mano entre Diego Ventura e Roca Rey, cartel de luxo. João Pedro Bolota não quis ficar atrás e montou um super-cartel em Santarém, no feriado de 10 de junho: Diego Ventura, “El Juli” e Morante de la Puebla e a praça não esgotou… A empresa do Campo Pequeno não quis ficar fora do pódio e a 13 de julho, Pablo Hermoso de Mendoza e José Mari Manzanares tourearam no Campo Pequeno e a praça infelizmente não esgotou. Onde andam os aficionados? Aqueles que conhecem as figuras do toureio? Aqueles que compram religiosamente a revista “Novo Burladero”? Eles andam nas bancadas das nossas praças, mas infelizmente não são em quantidade suficiente para as esgotar.

A realidade atual, é que existe muito público que gosta da tauromaquia, em especial da tauromaquia de rua (largadas, pamplonas etc…), existe bastante público que adere as corridas à portuguesa, em especial as de seis cavaleiros e se for de gala melhor ainda. Mas quando se trata de um cartel, que podia ser de uma das principais feiras de Espanha ou França, as entradas não refletem o esforço daqueles que montam as corridas de toiros.
“El Juli”, Morante, Manzanares e Roca Rey, estamos a falar da “nata da nata” dos toureiros. São os “Ronaldos” e os “Messis” das corridas de toiros. Ninguém se pode queixar, que as empresas não fizeram um esforço descomunal para trazer “a fina flor” da tauromaquia mundial. E não venham para cá com desculpas, que o toureio a pé não funciona porque o toiro não é picado. Vejam o vídeo do “El Juli” em Lisboa em 2015, e assistam a três faenas incríveis.

No que diz respeito às empresas propriamente ditas, o Campo Pequeno continua a ser indiscutivelmente o barómetro da temporada portuguesa. Este ano, a praça da capital, comemorou o seu 125º aniversário, organizou onze corridas de toiros e uma novilhada. O ponto alto, foi a corrida do aniversário e a corrida de gala à antiga portuguesa. Nada apontar, estes cartéis são aquilo que o público gosta de ver em Lisboa. Esporadicamente gosta de ver um rejoneador de topo (Pablo ou Diego) e um matador de toiros nacional a competir com uma figura de Espanha.
Não sei se é possível devido ao caderno de encargos (e às obrigações que sejam inerentes ao mesmo), mas caso seja possível em 2018 sugeria à empresa, uma diminuição do número de corridas em Lisboa (este ano já diminuíram uma no decorrer da temporada). Menos espetáculos, bem intervalados a nível de datas entre eles (de forma a criar saudades de ir ao Campo Pequeno) e mais lotações esgotadas.

Um espetáculo por mês, de preferência à sexta-feira, tendo em conta que muitos espetadores vivem fora de Lisboa (em particular no Alentejo e Ribatejo), e no fim da corrida gostam de conviver na zona de restauração envolvente à praça, sem estarem preocupados nos afazeres profissionais do dia seguinte. Por coincidência, a corrida dos 125 anos, realizou-se a uma sexta-feira, foi transmitida em direto na televisão e teve lotação esgotada. A transição das corridas de quinta para sexta-feira, podia ser na atualidade uma mais valia.

Uma corrida por mês entre Abril e Outubro, mais uma novilhada de promoção aos novos valores, um festival taurino a favor de uma causa solidária no final da temporada e para começar em Fevereiro um evento de cariz familiar e didático, de forma a fomentar novos aficionados, como por exemplo o “Bullfest” ou a “Festa do Forcado”.  Ao todo, seriam seis corridas de toiros, uma novilhada e dois festivais, o que iria totalizar nove espetáculos taurinos em Lisboa. Ás vezes, menos é mais!

No que diz respeito aos outros promotores taurinos, a redução de um ou outro espetáculo em alguns certames, poderia ser uma mais valia para eles. Por exemplo, retirar do calendário a corrida do fogareiro na Feira da Moita, ou a segunda corrida da Feira de Santarém.

António Manuel Cardoso “Néné”, mantém-se fiel a si próprio, aposta no “toiro-toiro”, levando às suas praças animais de grande porte e bonita apresentação. Não foi na moda do toureio a pé e apostou sempre em corridas à portuguesa e em duas ocasiões (Évora e Alcochete) contratou uma numa figura de Espanha, neste caso a aposta recaiu em Pablo Hermoso de Mendoza. Se a praça de Évora tivesse menos uma corrida no calendário, poderia podia ser uma mais valia para “Néné”.

Rafael Vilhais entrou a todo o gás em 2016, mas esta temporada perdeu o fulgor. Arriscou em grandes carteis, mas o público não correspondeu como deveria ser. O mal deste empresário é ser demasiado aficionado (em especial ao toureio a pé) e não perceber que o público se calhar não é tão aficionado quanto ele.

A empresa “Aplaudir” de João Pedro Bolota, foi das que saíram mais prejudicadas este ano, por culpa da falta de aficionados. O antigo cabo dos amadores de Alcochete, montou dois extraordinários festejos na Feira de Santarém e o público e os aficionados não corresponderam. Infelizmente, não pode organizar corridas da praça de toiros de Setúbal. Uma praça que Bolota reabilitou e é um recinto que costuma ter uma ótima adesão por parte do público, mas que este ano por motivos alheios esteve de portas fechadas.

A empresa do maestro Fernando dos Santos, continua a ser aquela que mais espetáculos organiza em Portugal, nomeadamente em Albufeira onde conjuga as oportunidades aos jovens, com corridas para veraneantes. Este ano o ponto alto, foi a estreia de Pablo Hermoso de Mendoza em terras algarvias. Na Nazaré, montou uma temporada interessante, que teve a “encerrona” de Sónia Matias, como principal motivo de interesse.

Paulo Pessoa de Carvalho, é uma pessoa séria e cheia de afición mas em 2017 não teve certamente a temporada sonhada. É um promotor que as “más línguas”, dizem ter uma forte vocação para corridas de um público do “social”. Pessoalmente, discordo em absoluto disso! Acredito sim, que o Paulo tenha andado mal rodeado (deveria rever o seu staff, apostar na juventude e não é só no desenho dos cartéis… é em mais do que isso), acredito que tenha saudades de gerir a “sua” praça das Caldas da Rainha. Por outro lado, tenho a certeza, que não tinha necessidade nenhuma de sair de Vila Franca debaixo de assobios.

Em Vila Franca de Xira as coisas não lhe correram de feição. A “Palha Blanco” é uma praça com um público muito especial, onde existe um aspeto que jamais pode ser descuidado: o Toiro. Os vilafranquenses gostam de ganadarias portuguesas ditas “duras”. O toiro não tem de ser necessariamente grande, mas tem de ter trapio e acima de tudo, tem de transmitir! Foi só isto que faltou ao Paulo Pessoa de Carvalho, para que esta temporada fosse um sucesso na vila das margens do Tejo. Gostava muito de ver o Paulo Pessoa, novamente me Vila Franca, mas rodeado de outras gentes. Quem o assobiou agora, iria certamente ovaciona-lo de pé!

Por falar em Paulo Pessoa de Carvalho, é com a sua colaboração que a Junta de Freguesia de Abiul, organiza uma feira taurina onde a qualidade está sempre presente, ano após ano.

Vasco Durão, em 2017 organizou sozinho as corridas de Reguengos de Monsaraz e de Alcácer do Sal. Aposta sempre na corrida à portuguesa e procura investir em bons curros de toiros.

José Luís Gomes, prima pela qualidade e diversidade. Em 2017 organizou bons espetáculos em especial na praça de Sobral de Monte Agraço.

Destaque ainda, para João Guerra uma das pessoas mais sérias e honestas que conheço neste meio. A corrida na Benedita, já vai na décima quinta edição e é sempre um sucesso, sendo provavelmente a melhor corrida de toiros realizada nos tempos que correm, numa praça desmontável.

Ao todo em 2017, segundo dados da Associação Portuguesa de Criadores de Toiros de Lide (APCTL), realizaram-se em Portugal, um total de 205 espetáculos taurinos, sendo que 141 foram corridas de toiros.

A diminuição do número de festejos, poderia refletir-se no aumento do número de espetadores.

É importante apostar nas datas tradicionais e não inventar datas. Salvo raríssimas exceções, a corrida à portuguesa, é a vertente preferida pelo público e pelos aficionados. Há que evitar ao máximo a sobreposição de datas e a realização de corridas de toiros em localidades próximas umas das outras. Apostar numa comunicação mais vocacionada para o digital, em prol do papel de parede e dos outdoors.

Estas, são apenas algumas medidas, que devem ser aplicadas em 2018, de maneira a contribuir de forma positiva, para a evolução da Festa Brava em Portugal.

foto: Emílio de Jesus